Nesse texto apresento uma versão simplificada das principais ideias do Hermetismo, conforme encontradas nos textos clássicos do Corpus Hermeticum.
Rainha Nefertari e Thoth — Fonte da imagem
O Corpus Hermeticum
O Corpus Hermeticum é uma coleção de textos de caráter místico,
filosófico e iniciático, escrita por volta de 100 a 300 DC. Os textos
são atribuídos a Hermes Trismegistos, uma figura lendária cuja origem
provavelmente vem do sincretismo entre o deus egípcio Thoth e o deus
grego Hermes.
Apesar de sugerir uma descendência direta da filosofia egípcia, os
textos não foram encontrados em Hieróglifos, mas em Grego, Latim e
Copta. Eles foram reunidos na cidade de Alexandria, no Egito, durante os
séculos 2 e 3.
É interessante perceber que Alexandria foi um grande centro de
aprendizado, superando até mesmo Athenas. Seu fundador, Alexandre o
Grande, conquistou e uniu Grécia, Pérsia, Egito e Índia em um grande
império. Culturas que cresceram de forma independente foram trazidas e
reunidas para a cidade. Gregos, Judeus, Egípcios, Babilônios, Fenícios e
até mesmo Budistas se associaram de forma pacífica.
Ilustração da Biblioteca de Alexandria
Os Alexandrinos eram conhecidos por sua grande sede de conhecimento e
sua famosa biblioteca reuniu sistematicamente conhecimentos de todo o
mundo. Entre os trabalhos reunidos estavam os trabalhos de Euclides,
Arquimedes e os trabalhos de matemática, geometria e geografia do
astrônomo Ptolomeu. A biblioteca também era rica em conhecimento
esotérico — Pitagorismo e Oráculos Caldeus, mitos gregos, filosofia
Platônica e Estóica, Judaísmo, Cristianismo, Escolas Gregas de Mistério,
Zoroastrismo, Astrologia, Alquimia, Budismo e, claro, religião egípcia,
que eram todas estudadas, comparadas e discutidas.
Apesar de sua importância, o Corpus Hermeticum ficou um pouco
esquecido, voltando a aparecer em 1463, após a tradução de Marsilio
Ficino, a pedido de Cosimo de Medici, o fundador da Nova Academia
Platônica. Esse grupo de intelectuais e místicos buscava inspiração na
filosofia Pagã e influenciou grandes artistas e pensadores.
Os críticos de Hermes
A princípio acreditava-se que o CH era de uma extrema antiguidade, da
época dos faraós, além de dezenas de lendas ligadas a Hermes
Trismegistus. Contudo, em 1614 o Hermetismo sofreu um grande impacto. Um
pesquisador chamado Isaac Casaubon publicou uma análise textual do CH,
no qual ele demonstrava que pela gramática, vocabulário, formas e
conteúdos da versão grega desses trabalhos, os textos não poderiam ser
mais antigos do que o século II. Segundo Causabon, o CH não teria sido
escrito por um sábio egípcio, mas por estudiosos de Alexandria. Sua
filosofia não seria nada mais que uma mistura exótica de filosofias
Gregas, Cristãs e Judaicas, acrescidos de astrologia e magia.
Causabon foi um grande estudioso da cultura grega em seu tempo e por
isso sua crítica foi em geral aceita, fazendo os livros de Hermes serem
esquecidos e considerados falsos.
Algumas das críticas levantadas eram verdadeiras. Os livros de Hermes
foram escritos por vários autores e não por um sábio ancião e eles
certamente foram escritos nos primeiros séculos da nossa era.
Contudo, mesmo os textos do CH terem sidos escritos em Alexandria,
todas as evidências modernas sugerem que eles de fato expressam crenças
egípcias filtradas de acordo com o entendimento dos estudiosos Gregos
daquele período. Quando Causabon escreveu sua crítica, pouco se conhecia
do Egito antigo. Os Hieróglifos não tinham sido traduzidos até 2
séculos após sua morte. Consequentemente, muitos estudiosos modernos
acreditam que ele estava errado, especialmente após a descoberta dos
textos egípcios da pirâmide de Saqqara. Esses hieróglifos de mais de
5000 anos contém doutrinas que são idênticas às expostas no Corpus
Hermeticum. Isso sugere que o CH pode realmente conter a sabedoria dos
Faraós.
Por causa das passagens que remetem a trabalhos Judeus, Cristão e
Gregos, Causabon acreditou que o CH foi forjado, criado a partir de uma
miscelânea de outras filosofias, o que faria sentido num contexto onde
foram encontrados os textos. Entretanto, mesmo os estudiosos antigos
acreditavam que essas tradições sofreram influências do Egito Antigo. Os
Judeus viveram muitos anos em exílio no Egito e muitos cristãos viveram
na região. Além disso, os Gregos tinham grande respeito pelos Egípcios.
Uma das críticas de Causabon foi de que o CH teria plagiado a obra
Timeu de Platão, que inclui as doutrinas de astrologia e reencarnação.
Entretanto, é sabido que o mestre de Platão, Pitágoras, ficou 22 anos
estudando nos templos do Egito. De acordo com Diógenes Laertius, Platão
teria comprado 3 livros de doutrinas pitagóricas baseadas na sabedoria
egípcia e adaptado em sua própria obra, Timeus. Desta forma, a
semelhança entre os trabalhos de platão e o CH não é uma surpresa.
Apesar de ter sido escrito por estudiosos alexandrinos, o CH possui
influências de um conhecimento antigo no qual foi baseado. Ele nos
oferece uma das melhores janelas disponíveis para observar o passado
remoto do Egito e entender a visão mística que inspirou as incríveis
pirâmides de Giza.
Principais conceitos do Hermetismo Tradicional
Santo é Deus, o Pai de Todas as Coisas.
Santo é Deus, cuja Vontade se realiza por meio de Suas potências.
Santo é Deus, que quer ser conhecido e que é conhecido por aqueles
que lhe pertencem.
Tu és Santo, tu que constituíste todas as coisas mediante tua Palavra.
Tu és Santo, tu de quem toda a Natureza é a imagem.
(…)
O Tu que és Inexprimível, Inefável, cujo nome apenas o Silêncio pode nomear,
aceita as oferendas puras de minhas palavras,
pronunciadas de uma alma e de um coração que se voltam completamente para Ti!
Não permitas que eu me extravie!
Dá-me a Gnose, o Conhecimento de nossa essência!
Dá-me a força!
Com essa graça, iluminarei aqueles que estão na ignorância,
meus irmãos, Teus filhos.
Creio em Ti e Te rendo homenagem.
(…)
Hino de Louvor, Corpus Hermeticum
Deus no Hermetismo
Apesar de não ser possível definir Deus com palavras, Hermes dá algumas indicações de como contemplá-Lo:
Deus é Uno. Tudo é uma parte do Ser Supremo. Como o número “um”, que é
a raiz de todos os outros números seguintes, Deus é a fonte de tudo.
Porque ele reúne tudo, sua natureza é paradoxal. Ele é o Criador que
cria a Si Mesmo. Ele está sempre escondido de nós, embora também esteja
no mundo ao nosso redor. Ele não tem um nome particular, porque todos os
nomes se referem a Ele. Deus é ao mesmo tempo os objetos materiais ao
nosso redor e os pensamentos imateriais em nossa mente.
Deus é a Mente Suprema. A mente humana é uma imagem da Mente Suprema.
Por meio da imaginação é possível percorrer o universo e, como Deus,
estar em todos os tempos e lugares.
Tudo existe como uma ideia na Mente de Deus. Ele cria todas as
coisas, da mesma forma que nossa mente cria pensamentos. Assim como a
natureza da mente é pensar, a natureza de Deus é Criar. Isso não é algo
que ele começou a fazer no começo dos tempos. Ele faz isso
continuamente, está constantemente criando e nunca terá fim.
Acima de todas as ideias está a Bondade e a Beleza. Essas qualidades
pertencem a Deus somente. Elas podem ser encontradas de forma imperfeita
no mundo material, mas existem em toda perfeição no mundo imaterial da
mente.
Cosmogonia
Em um dos principais textos do CH, Hermes recebe direto em sua Mente uma visão. Nessa visão, é revelada a criação do Universo.
A visão começa com uma luz serena e agradável, mas em seguida se
transforma em trevas espantosas e terríveis, espalhando-se em uma
espiral, que lembrava o formato de uma serpente.
Essa é visão mística do primeiro ato de criação, equivalente à teoria
do Big Bang. Uma explosão de luz e energia aos poucos diminui e se
torna o útero do Espaço, no qual o sol e outros planetas nascem.
Esse nascimento, como qualquer outro, é acompanhado de dor e Hermes
ouve um grito inarticulado e penetrante, um gemido indescritível. Após
isso o Verbo (Logos) acalmou as águas e organizou o Cosmos.
O Verbo é como um projeto que irá organizar o cosmos de uma forma
estruturada, a partir do caos primordial. A ciência moderna poderia
chamar de leis da natureza.
A estrutura do Universo
Deus cria um princípio organizador — a Mente Cósmica (Demiurgo). Esse
princípio organiza a matéria caótica em um belo Cosmos ordenado
A Mente Cósmica ( Demiurgo) representa as leis fundamentais da
Natureza, que governam a vida. Por exemplo, um dos princípios pelo qual o
Cosmos é organizado é o tempo. Esse princípio produz constante mudança e
é por causa dele que as coisas nascem e morrem. A existência do tempo
significa que tudo que existe no Cosmos está constantemente mudando, de
uma forma mensurável.
Deus cria a Mente Cósmica
A Mente Cósmica cria o Cosmos
O Cosmos cria o Tempo
O Tempo cria a Mudança
A Mente Cósmica é uma imagem de Deus
O Cosmos é uma imagem da Mente Cósmica
O Sol é uma imagem do Cosmos
O Homem é uma imagem do Sol
A Mente de Deus (Nous), tomada pelo Verbo (Logos), criou os elementos
da natureza. Em seguida criou outra inteligência, a Mente Cósmica (
Demiurgo) , um princípio ordenador que organiza a matéria caótica no
belo e ordenado Cosmos.
Porque o Cosmos é feito como uma imagem do Criador, ele é também um
ser vivente imortal. Durante sua criação, ele foi preenchido com
energia, que como a ciência moderna provou, não pode ser criada ou
destruída, apenas transformada.
Deus é a fonte dessa energia, que através das Leis da Natureza, cria a
vida. A Mente Cósmica recebe a energia a partir de Deus e distribui
para todo o Cosmos. Por meio desse processo, o Cosmos é completamente
preenchido com Alma — A Força-Vital. Tudo nele está vivo. Nada está
morto, nem mesmo as coisas inanimadas. O Cosmos é um grande ser vivo que
dá Vida a todos os seres que nele estão. É o Todo que cuida das partes,
assim como um pai cuida de seus filhos.
Hierarquia e influência dos deuses
Para Governar o Cosmos, a Mente Cósmica (Demiurgo) configurou 7
regentes ou deuses, que por sua vez, envolvem o Mundo Sensível e o
governam por meio de Destino. Os 7 regentes são os 5 planetas visíveis
(Mercúrio, Vênus, Júpiter, Marte e Saturno), junto com o Sol e a Lua.
Os Regentes derramam de forma ininterrupta uma corrente de Energia em
todas as formas da matéria, fazendo com que elas mudem de um estado a
outro, num processo que chamamos de nascer e morrer. Os deuses garantem
que tudo aconteça de acordo com a Vontade de Deus.
Para garantir que o Homem não utilize seus poderes de uma forma
destrutiva, Deus criou o Zodíaco, um mecanismo celestial que controla a
sorte dos homens. Poucos homens conseguem escapar das influências do
Zodíaco. Entretanto, com a mente iluminada pela Luz de Deus, o homem
pode se tornar livre dessas influências celestiais.
Associação da astrologia com o corpo humano
Parte do nosso destino é influenciado pelas posições dos planetas no
momento do nosso nascimento. São os deuses controlando nossos corpos e
moldando nossas almas. É nosso dever não apenas aceitar nossa sorte, mas
ir além disso. Por meio da contemplação de Deus, superar a nossa
natureza mortal e acordar nossa alma imortal.
Criação da humanidade
Deus criou a humanidade porque queria uma criatura capaz de apreciar a
grande beleza do Cosmos, sua criação. Ele pede a cada um dos deuses
(Regentes) que forneça algo em benefício da humanidade. O Sol concede
alegria. A lua concede sono. Saturno oferece o limite da necessidade e a
força equilibrante da justiça. Júpiter concedeu paz, Marte presenteia
com a luta. Vênus oferece amor e Mercúrio a sabedoria.
VITRIOL (visita interiora terrae rectificando invenies occultum lapidem)
No começo os humanos eram apenas alma, sendo impossível cuidar da
Terra, como Deus gostaria. Então Deus fornece a cada humano um corpo
mortal, que serve de morada para sua alma imortal.
A Natureza é como uma bela mulher, amante do mundo, que produz as
sementes da vida. Ao perceber que a alma humana é a imagem de Deus, a
beleza magnífica e inesgotável e todas as energias dos sete deuses
(Regentes), a Natureza se apaixona pelo Ser Humano. Então o apreende e
envolve completamente a alma, se unido em um amor mútuo.
Dessa forma, todos os humanos possuem uma natureza dual, sendo a
combinação de uma alma imortal e um corpo mortal. Nós honramos os dois
lados de nossa natureza quando servimos Deus e cuidamos do mundo natural
para ele.
Finalmente Deus presenteia a humanidade com um último presente — a
habilidade de se reproduzir. Mais do que isso, ele faz com que esse
processo seja um sacramento sagrado que reflete o casamento da matéria e
espírito que criou o Universo.
Ao contemplar o Cosmos, a criação da Mente Cósmica, o Ser Humano
também quis criar. Cada um dos Governadores compartilhou com a
humanidade um pouco de seu poder criativo.
Pirâmide de Giza — Fonte da Imagem
Missão do Homem
O CH ensina que o Universo não estará finalizado até que a humanidade
exerça a sua parte na História. As Artes e as Ciências inventadas pelos
humanos completam o grande ciclo.
No Antigo Egito acreditava-se que todo o conhecimento necessário para
que a humanidade sobrevivesse na Terra teria sido ensinado aos seus
ancestrais por Isis e Osiris. A deusa Ísis ensinou a arte de semear e
criação de animais, e mostrou o uso de ervas e remédios para o cuidado
do corpo. Ela ensinou o respeito pelos mortos e como honrar suas
memórias com oferendas de frutas e flores. Osíris teria ensinado as leis
e a justiça, e fundou os ritos de adoração que manteve os homens
humildes e honestos. Ele ordenou os primeiros sacerdotes para que
cuidassem da alma do homem por meio da filosofia e ensinamentos.
O Homem foi criado como um veículo pelo qual Deus poderia continuar a trazer Ordem e Beleza ao Cosmos.
A composição dual do Homem
O Cosmos é uma imagem de Deus e o homem é uma imagem do Cosmos.
Todos os seres têm Alma (A energia de vida), porém somente o Homem
possui o poder da Mente (Nous), com a qual pode contemplar o Cosmos e
vir a conhecer a Deus (Gnosis).
Os humanos possuem uma natureza dual. Nós somos uma Mente (Nous) em
um corpo físico. A Mente humana é uma imagem da Mente de Deus — Imortal,
eterna, divina e livre.
O corpo humano, por outro lado, é controlado pelas leis do Destino,
que são governadas pelas estrelas. Essa natureza dual nos coloca acima
mesmo dos deuses, que orbitam somente o paraíso e jamais podem sair
deles. Os humanos, no entanto, podem estar ao mesmo tempo na Terra e,
pelo poder de sua Mente, ascender ao Paraíso.
Anubis pesando o coração na balança de Maat
Encarnação da Alma e influência dos Astros
Todas as almas são fragmentos de uma mesma alma, a Alma do Cosmos.
Todas as almas compartilham da mesma natureza. Elas não são nem
masculina, nem feminina, essas características existindo apenas no corpo
físico.
Para auxiliar as almas em sua Jornada, Deus possui dois ajudantes: O
Guardião das Almas cuida do desencarne das almas e o Condutor de Almas
as envia para um corpo físico, que é criado pela Natureza.
Como dito anteriormente, nossas características são governadas pelas
qualidades dos deuses que estavam influenciando no momento do nosso
encarne. Se no momento do nascimento o deus Regente era calmo, nós
seremos calmos por natureza. Se o deus regente possuía tendências
bélicas, a pessoa tenderá a ser mais agressiva.
O processo de reencarne é doloroso para a alma, porque a faz esquecer
da própria natureza divina a mergulha na influência dos deuses e do
destino. O Bem é incompatível com o corpo material, e assim que a alma
entra em um corpo ela é aprisionada pela dor e prazer.
Após sair do corpo, a alma individual é julgada pelo chefe dos
deuses, para saber se ela foi pura e honrada durante sua encarnação.
Almas puras são direcionadas para um paraíso calmo. Almas ignorantes
caem novamente no mundo material.
A alma que durante sua vida conheceu a Deus, se torna Todo Mente. Ao
sair do corpo, essa alma reconhece que sua natureza é divina e comunga
com Deus. Essa alma se torna “Um Deus”
Pirâmides de Giza — Foto: Sebastien Nagy
Conhecer a Deus
O Propósito da Vida, segundo o CH, é o Conhecimento de Deus. Para
conhecer a Deus, nós precisamos nos tornar como Deus. É preciso, com
nossa Mente, nos imaginar em todos os lugares e tempos; abraçar todos os
opostos; descobrir nossa natureza imortal; Ao expandir nossa mente, nós
podemos comungar com a Mente de Deus.
A Mente (Nous) é a parte imortal do ser humano. É a Luz Divina que
emana diretamente de Deus. De todos os seres vivos, apenas os humanos
têm essa qualidade divina, que permite Conhecer a Deus (Gnosis)
Deus quer que nós mergulhamos em nossa Mente (Nous) e assim nos
tornemos totalmente divinos, mesmo que aqueles sigam esse caminho sejam
considerados loucos pelas massas ignorantes.
O destino, imposto pelo homem pela roda do Zodíaco, sujeita os seres
humanos à dor, nascimento e morte. O problema do homem é que em sua
ignorância ele acredita ser apenas um corpo, que irá crescer, sofrer e
eventualmente morrer. Sua situação de injustiça e inevitabilidade o leva
a machucar a si mesmo e aos outros, seja pelo desejo de mais vida ou
pelo medo da morte se aproximando. Esses atos servem mais para afundar a
alma ao corpo do que aliviar seu sofrimento.
A Religião da “Mente”
Um dos pontos centrais no Hermetismo é o conceito de Gnosis. Esta
palavra grega significa conhecimento, mas um tipo diferente do
conhecimento comum, chamado pelos gregos de Episteme. Enquanto a
episteme se refere ao corpo de ideias que chegam por meio do raciocínio e
experiência, a Gnosis é uma espécie de “conhecimento intuitivo das
verdades espirituais”. É um tipo de conhecimento mais imediato, direto,
uma forma não-discursiva de perceber a realidade. A Gnosis não é
alcançada de forma argumentativa, lógica ou empírica. Não pode ser
ensinada, embora os meios de alcançá-la tenham sido e continuam sendo
ensinadas em grupos esotéricos. Para G.R.S. Mead, a essência da Gnosis é
a fé de que o homem pode transcender os limites da dualidade e pode se
tornar um ser divino.
Purificando a si mesmos da ignorância é o primeiro degrau na escada
que leva ao renascimento. Renascer é o Conhecer de nossa imortalidade.
Aquele que renasce, entra em comunhão com Deus. Mas isso só pode
acontecer quando nós silenciamos nossa mente e em contemplação profunda,
entramos em contato com nossa parte mais Divina.
Conclusão
O Hermetismo é um dos pilares da cultura ocidental. A importância do
Corpus Hermeticum é tão grande quanto outros textos esotéricos, como os
Upanishads, o Dhammapada e Tao Te Ching.
Grandes filósofos como Clemente de Alexandria, Lactâncio, Jâmblico,
Marcílio Ficino, pico Della Mirandola, Cornelius Agrippa, Paracelso,
Jacob Boheme, Goethe, entre outros, foram alguns grandes pensadores que
reconheceram a sabedoria descrita nesses textos.
Conhecendo sua origem, fica fácil perceber a influência dessa
filosofia nos círculos esotéricos contemporâneos. O trabalho com
sistemas planetários, que mais tarde foi incorporada na Cabala
Hermética; a influência dos Astros, calculado no Mapa Astral;
ferramentas para tentar prever a sorte são alguns exemplos de como o
pensamento hermético se fez sempre presente.
Entretanto, pouca ênfase é dada ao lado metafísico e teológico do
Hermetismo. A Gnose, os métodos de “Conhecer a Deus” que, segundo o CH, é
principal objetivo do Homem, em geral é pouco discutido, perdendo
muitas oportunidades de reflexões e ampliação do tema.
Mesmo que poucos textos originais do Hermetismo tenham sobrevivido, é
possível perceber a profundidade de seus ensinamentos. O Corpus
Hermeticum apresenta uma interessante cosmovisão e conceitos importantes
que também são abordados por outras correntes mistico-religiosas. Por
exemplo, a Gnose, a transcendência da dualidade, a influência do corpo
físico no corpo Espiritual são assuntos muito discutidos em correntes
gnósticas. Já o método do Silêncio Interior, a contemplação, a superação
da dualidade e da ignorância (Avidyā) são temas importantes em diversas
escolas do Budismo.
Comparando os elementos do Corpus Hermeticum com os textos que já
foram recuperados do Antigo Egito, é possível cada vez mais se adentrar
nos Mistérios que um dia foram ensinados por grandes Mestres do passado.
Esse texto é apenas uma visão simplificada do Corpus Hermeticum e
Hermetismo Tradicional. Tem o objetivo de ser uma introdução acessível
ao tema e não pretende esgotá-lo ou servir de referências acadêmicas.
Fontes
Ebeling, Florian. The secret history of Hermes Trimegistus:
hermeticism from ancient to modern times. Cornell University Press, 2007
Freke T, Gandy P. The Hermetica: The Lost Wisdom of the Pharaoh, Penguin Putnam Inc, New York, 1997
Lachman, Gary. The Quest For Hermes Trismegistus. Floris Books, 2011
Trismegisto, Hermes. Corpus Hermeticum. Tradução, edição, introdução e Notas Americo Sommerman. São Paulo: Polar, 2019