domingo, 12 de fevereiro de 2023

As influências do Hermetismo (Segundo a Golden Dawn)

 

A Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn) deriva seu nome em parte da Tradição Hermética do Hermetismo, cujo nome por sua vez se origina na encarnação viva da divindade grega Hermes – o deus da comunicação. Hermes foi identificado com Thoth, o deus egípicio da sabedoria e Magia, e assim Hermes-Thoth ficou conhecido como o deus patrono de todas as atividades intelectuais e científicas, incluindo Astrologia, Astronomia, Arquitetura, Alquimia, Matemática, Medicina, Escrita, Biologia, Agricultura, comércio, adivinhação e de modo especial , a Magia Prática. Hermes também foi considerado o maior de todos os filósofos. Ele entendia a natureza secreta do Universo e a física espiritual que o governava. Acima de tudo, Hermes foi considerado o grande professor da humanidade – ensinando a homens e mulheres, através das eras, as e tecnologias e conhecimento espiritual que melhorariam a vida Humana

No século II, a figura de Hermes, complementada com a figura do caduceu com as duas serpentes enroscadas, tornou-se o símbolo de personagem  Hermes Mercúrio Trismegisto, ou Hermes, O Três Vezes Grande, um tipo de avatar ou incorporação viva do deus Hermes-Thoth. Acreditava-se que Hermes Trismegisto fora um antigo sacerdote e mago egípcio que escrevera 42 livros acerca da sabedoria esotérica – coleção conhecida como literatura hermética ou hermética.

As raízes da Tradição Hermética remontam à Antiguidade – o período helenístico no ínicio da Era Comum. Foi um período em que as grandes culturas Gregas e Egípcias, se juntaram no caldeirão da civilização, que foi criada quando Alexandre, O Grande, conquistou o mundo mediterrâneo, culminando no capitólio cultural de Alexandria. A sabedoria espiritual oriunda de uma junção de diferentes religiões, filosofias, tradições e culturas fluiu para essa cidade cosmopolita, onde se fundiu com uma nova síntese de filosofia, crença espiritual e prática de Magia, que mais tarde seria conhecida como Hermetismo. Embora essa nova fusão de crenças tenha sido atribuída ao deus egípcio da sabedoria encarnado em forma humana e fosse ostensivamente egípcia, ela abrangeu não apenas as reservas eternas e exuberantes da religião, da Magia e da filosofia Khemeticas, mas também muitas facetas da filosofia grega clássica e do paganismo grego, em especial os ensinamentos do platonismo, neoplatonismo, estoicismo, teurgia ou Alta Magia de Jâmblico. A essa mistura foram acrescentados os ensinamentos mágicos e a hierarquia angelical do Judaísmo, o dualismo cósmico do Zoroastrismo persa e as muitas formas de Cristianismo e Gnosticismo. Essas foram as influências básicas do antigo Hermetismo.

Influências sobre o Hermetismo

O Hermetismo tomou emprestado e adaptou idéias de muitos caminhos espirituais e culturais que coexistiam na sofisticada cidade de Alexandria. Alguns deles foram mencionados nas páginas anteriores, mas outros são muito numerosos para o propósito deste livro. No entanto, as maiores influências do Hermetismo necessitam de uma breve descrição:

Magia e Religião Egípcia

A influência do Egito Antigo no caminho hermético não pode ser  subestimada. Não só a religião Khemética determinou o padrão para as fórmulas mágicas, técnicas, rituais, invocação, usando nomes de poder, devoção aos deuses e o modelo de sacerdócio treinado de magos, mas também os Egípcios formularam alguns dos primeiros conceitos acerca dos elementos componentes da alma humana.

Filosofia Grega Clássica

Os filósofos gregos clássicos abriram caminho totalmente novo para se observar o universo e o lugar da humanidade nele. Eles apresentaram explicações racionais e abstratas de fenômenos naturais que dependem menos das mitologias e dos deuses tradicionais e mais da ideia que tudo no Universo é criado a partir de uma única fonte ou essência. Eram exploradas em profundidade visões acerca dos quatro elementos, do significado dos números, da evolução da alma humana e de um mundo divino de idéias ou arquétipos. A influência dos grandes filósofos se estenderia não só ao princípio do Hermetismo, mas também aos valores, à ideologia e ao pensamento de toda a civilização ocidental

Religiões Gregas de Mistério

As religiões gregas de mistérios ofereciam o que os filósofos clássicos tinham descartado – uma relação profundamente pessoal entre os veneradores humanos e suas divindades adoradas. Insatisfeitos com a religião pública estagnada, exotérica da época, os veneradores sentiam-se atraídos pelos rituais significativos e ritos secretos que passavam um sentido de crescimento espiritual. Essas religiões também proporcionam aos seus seguidores sensação de fazer parte de uma comunidade ou irmandade de pessoas com uma mentalidade parecida.

Estoicismo

A filosofia Helenística do Estoicismo enfatizava a virtude e a conduta moral, bem como uma abordagem racional e científica às perguntas maiores a respeito da origem e natureza do Universo. Eles exaltavam a crença nas simpatias cósmicas e a ideia de que os mitos dos deuses eram alegorias de verdades filosóficas. todas essas ideias se tornaram importante para o caminho hermético, particularmente a arte hermética da Alquimia. Entretanto, em total negação de qualquer coisa espiritual ,o s estóicos levavam essas ideias ao extremo, em favor de uma materialidade estrita e com frequência, fatalista. Nisso eles se distanciaram dos hermetistas.

Neoplatonismo

O vocabulário e os conceitos básicos usados pelos neoplatônicos para descrever sua filosofia eram, em muitos aspectos, quase idênticos aos empregados pelos hermetistas. O conceito hermético do Deus transcendente era semelhante ao apregoado pelos filósofos neoplatônicos. O Hermetismo, porém, era uma doutrina mais religiosa que filosófica. Com exceção de Jâmblico e seus seguidores, o neoplatonismo não promoveu de modo especial práticas espirituais ou mágicas. Consequentemente, o Deus Hermético é menos abstrato e mais pessoal que o proto-theos  dos neoplatônicos.

Gnosticismo

Às vezes é fácil confundir Gnosticismo com Hermetismo. Ambos os grupos utilizavam terminologia platônica e acreditavam na existência de um Deus transcendente, bem como em divindades inferiores celestiais e terrestres. Tanto os gnósticos quanto os hermetistas davam grande ênfase ao conhecimento espiritual obtido por meio de revelação divina (gnose) e à exaltação final da alma por meio da união com sua fonte (Deus). Para os hermetistas, porém, a gnose era um meio para a salvação, não o resultado final em si, mas apenas o começo. Ambos os sistemas ensinavam  que a libertação da alma das amarras do mundo material resultava em sua salvação. Parece, contudo, que os hermetistas enfatizavam a importância de receber um treinamento metódico na “arte de Hrmes”, que era seguido pela experiência mística de iniciação nos mistérios herméticos. Em contraste, os gnósticos não tinham tanto interesse pelo treinamento intelectual como um caminho para a gnose, mas sim por receber o dom da gnose como resultado direto da salvação e iluminação. Além disso, os hermetistas acreditam que Deus, embora incognoscível em essência, podia ser compreendido pela mente humana por intermédio da meditação e da reflexão filosófica. Os gnósticos tinham muito menos fé no nous ou na mente da humanidade.

Por fim, diferente dos gnósticos que achavam que o Cosmos era uma criação maligna de um deus criador malévolo, os hermetistas acreditam que o Universo era a criação milagrosa (e basicamente boa) de Deus. Eles não tinham o conceito de demiurgo (da mesma forma que o gnosticismo). O corpo humano não era visto como uma prisão material da alma, mas sim como uma imagem do poder criativo de Deus. 

Os gnósticos e hermetistas tinham metas espirituais semelhantes, mas se empenhavam em alcançá-las por caminhos diferentes.

“O caminho hermético implicava instrução na natureza do Cosmo e do homem. Nesse processo de instrução eram usados todos os tipos de conhecimento humano, teorias do espaço e movimento, da ciência da astronomia e astrologia, medicina e, às vezes, práticas mágicas. Mas o propósito de tudo isso era tornar o mundo transparente para Deus. O caminho hermético levava, enfim, à iniciação do mistério divino, no conhecimento de Deus, ao próprio Deus como fonte do ser.”

Fonte:

Essencial da Golden Dawn: Introdução a alta magia – Chic Cicero, Sandra Tabatha Cicero

Linha do Tempo de Hermes Trisgmegistos

 

Os principais eventos sobre Hermes Trismegistos, em ordem cronológica:

Século 5 AEC

  • Heródoto identifica o Deus Egípicio Thot com o Deus Grego Hermes

Século 1 AEC 

  • Os textos do CH são escritos entre o século 1 e 4 AEC. 
  • Antíoco de Atenas é o primeiro a usar uma citação sobre astrologia atribuído a Hermes
  • Diodorus Siculus descreve o Hermes Egício como um lendário fundador cultural

Século 1

  • Cícero menciona 5 deuses e heróis com nome de Hermes, sendo o último deles o Lendário Hermes Egípcio
  • O livro Cyranides (Kyranides / Kiranides), escrito entre os séculos 1 e 5, contém prescrições mágicas-medicinais sob o nome de Hermes
  • Filo de Biblos é o primeiro a homenagear Hermes com o nome de Trismegisto, “Três vezes Grande”

Século 2

  • Atenágoras de Atenas é o primeiro escritor Cristão a mencionar Hermes Trismegistus
  • Um papiro do século 2 ao 3, agora em Viena, contém alguns fragmentos de textos herméticos. 
  • Nos Papiros Mágicos Gregos, alguns datados do século 1 AEC, mas a maioria do século 2 a 4 EC, Hermes é invocado em feitiços mágicos e teúrgicos

Século 3

  • Clemente de Alexandria menciona 42 livros de conteúdo filosóficos e médicos atribuídos a Hermes
  • Tertuliano chama Hermes de professor de todos os cientistas naturais
  • Zósimo de Panópolis se refere aos escritos de Hermes em relação ao lado espiritual da Alquimia

Século 4

  • Lactâncio enxerga claras correspondências entre a teologia do Hermetismo com a do Cristianismo
  • Para Jâmblico, o Hermetismo é uma doutrina ancestral Egípcia que é possui harmonia com o Neoplatonismo
  • Textos Herméticos, incluindo “A Ogdóade revela a Enéada” estão em Nag Hammadi (junto com outros textos gnósticos)

Século 5

  • Santo Agostinho condena Hermes, em especial o “apocalipse” citado no texto Asclepius, por idolatria pagã
  • Stobaeus registra um grande número de fragmentos Herméticos, incluindo Kore Kosmus
  • Um texto de Quodvultdeus se refere positivamente a Hermes como sendo uma testemunha pagã da Santíssima Trindade

Século 6

  • O Alquimista Olympiodorus afirma que Hermes concebeu a idéia do Homem como microcosmo

Século 8

  • Albuzar reconta a lenda do primeiro Hermes, que escreveu a sabedoria  primordial após o Dilúvio; do segundo Hermes, que mais tarde reviveu esta sabedoria; e do terceiro, que escreveu os textos alquímicos
  • A Tábua de Esmeraldas é citada no livro “Mystery of Creation” Pseudo-Apolônio de Tiana

Século 10

  • No texto árabe “Circular Letter of Spheres”, Hermes é celebrado como o “Mestre das Maravilhas” 

Século 11

  • Na enciclopédia Suda, Miguel Psello já conhecia a compilação de textos hoje chamada Corpus Hermeticum

Século 12

  • Dentro do círculo de estudos da escola de Chartres,  traduções são feitas a partir do Árabe e o interesse no texto Asclépio é renovado
  • Hugo de Santalla traduza Tábua de Esmeraldas para o Latim
  • O “O Livro dos 24 Filósofos” atribuído a Hermes, oferece várias definições sobre a essência de Deus

Século 14

  • Hortulanus escreve comentários sobre a Tábua de Esmeraldas
  • Berthold von Moosburg cita com frequência textos Herméticos como autoridade no assunto

Século 15

  • Nicholas de Cusa cita textos Herméticos e é acusado de Panteísta Hermético
  • Ficino traduz o Corpus Herméticum para Latim  e acredita que Hermes é o fundador de uma tradição filosófica de revelação

Século 16

  • Franck percebe os textos Herméticos como de igual valor aos textos da Bíblia
  • Patrizi vê Hermes como o segundo grande sábio, próximo de Zoroastro e superior a Aristóteles
  • Mornay, utilizando textos Herméticos, promove tolerância religiosa
  • No Aurora Philosophorum , a lenda do Hermes Árabe é adotada pelos seguidores de Paracelso

Século 17

  • Na alquimia, Paracelso se torna o “segundo Hermes”, ou o “Hermes Germânico”, que reviveu a sabedoria primordial.
  • Causabon acusa os os textos do CH como sendo uma combinação de Cristianismo e Platonismo.
  • Conring declara que os seguidores de Paracelso estão enganados ao chamar o Hermetismo de antigo
  • Cudworth defende  os textos do CH, alguns dos quais contém autênticas doutrinas Egípcias
  • Colberg enxerga o Hermetismo como nada mais que doutrinas Platônicas e as bases das doutrinas Pietistas, além de outros fanatismos
  • Os Pietistas negam qualquer conexão com o Hermetismo e afirmam que é possível discernir, nos textos Herméticos, uma cópia dos feitos de José do Egito

Século 18

  • Na primeira versão em língua Germânica do Corpus Herméticum, a imagem de Hermes do século 16, a Alquimia de Paracelso do século 17 e a Tábua de Esmeraldas, são combinadas com o Corpus Hermeticum
  • Tiedemann, em sua tradução,  assume uma interpretação Iluminista do Corpus Hermeticum
  • Ignaz von Born propõe que Hermes tenha sido um pensador Egípicio proto-Iluminista 
  • A Maçonaria Rosacruciana adota a imagem tradicional de Hermes como um sábio da filosofia perene

Século 19

  • Para Creuzer, Hermes é o simbolo da sabedoria e erudição. 
  • Em muitos grupos esotéricos e ocultistas, a imagem Alquímica-Paracelcista de Hermes é cultivada, apesar do algumas críticas

Século 20

  • A poesia de Ungaretti é chamada “Poesia Hermética” (fechada) e seus conceitos são adotados por seus seguidores
  • Evola entende o Hermetismo como um mundo pré moderno que não pode ser julgado de forma racional pelos mesmos critérios dos atuais
  • Humberto Eco define Hermetismo como a tradição que tentou pensar tertium datur (oposto ao princípio do terceiro excluído, tertium non datur)

Fonte:

The Secret History of Hermes Trismegistus, Hermeticism from Ancient to Modern Times – Florian Ebeling, 2005

Linha do Tempo do Corpus Hermeticum

 O Hermetismo é um conjunto de ensinamento religiosos, místicos e filosóficos que busca inspiração na figura mítica de Hermes Trismegisto (Hermes “Três Vezes Muito Grande”).

Hermetismo Tradicional

O Hermetismo surgiu em Alexandria (Egito), no período Helenístico (séculos 1 a 3 DC), um período onde havia grande troca de conhecimento entre povos de diferentes origens. Os pesquisares consideram o Hermetismo como uma Teologia, que mistura a religiosidade Egípcia com fortes influencias da filosofia Grega.

Segundo o Hermetismo Tradicional, o Homem possui uma natureza dual, composta pelo Nous (nossa parte mais Divina e Eterna) e um corpo físico, que está sujeito a influências do mundo sensível e dos Astros. O Homem deve trabalhar seus Vícios e fortalecer suas Virtudes, de acordo com a influência dos 7 Regentes. O Propósito da Vida, segundo o CH, é o Conhecimento de Deus (Gnose)

A descoberta dos manuscritos

Restaram poucos textos originais do Hermetismo. Quatorze deles foram agrupados no Corpus Hermeticum, no século XI, pelo filósofo e historiador Miguel Pselo e por volta do século XV esse corpus foi descoberto pelo monge italiano Leonardo da Pistoia, durante sua estadia na cidade grega da Macedônia em 1459, para onde foi a mando de Cosme de Médici a fim de coletar manuscritos antigos em grego e latim.

Cosme de Medici havia então fundado a Academia Platônica de Florença, junto com os filósofos Marcílio Ficino e Cristoforo Landino. Ao receber os manuscritos do Corpus Hermeticum, Cosme desejou ler os tratados antes de usa morte e, dessa forma, pediu que Marsílio Ficino fizesse sua tradução.

Na época, o CH foi considerado como a “principal fonte de uma teologia não-cristã, uma das últimas fontes da filosofia perene, de qual toda a sabedoria não judaico-cristã provinha. Em parte foi recebido com grande interesse, mas em outra foi visto como uma ameaça e competição para a religião cristã.

Contudo, em 1614, o pesquisador Isaac Causabon publicou uma análise textual que demonstava que o CH não era tão antigo quanto acreditava-se. No século XX o padre Festugiére dedicou sua vida para desvalorizar o conteudo do CH.

Foi apena a partir de 1945, com com os achados da biblioteca de Nag Hammadi pode ser desmentido e desde então seu conteúdo voltou a ser discutido em todo seu potencial e origens.

Linha do Tempo do Corpus Hermeticum

  • Séculos I a III DC – Os textos do Corpus Hermeticum são escritos por egípcios instruídos na cultura e filosofia Grega.
  • Século XI – Quatorze desses tratados forma reunidos em Constantinopla, pelo filósofo neoplatônico, teólogo e Historiador bizantino Miguel Pselo
  • 1459 – O CH foi encontrado na Macedônia por Leonardo de Pistoia. A mando de Cosmo de Médici, Marcílio Ficino faz a tradução para o latim, que terminando em abril de 1463. Pouco mais de três meses depois, a tradução para o italiano ficou pronta, pelo amigo de Ficino, o filósofo Tommaso Bensi.
  • 1471 – A tradução de Ficino para o latim foi publicada em Treviso, sem autorização. Outras publicações não autorizadas sucederam.
  • 1490 – O poeta, Filósofo e Hermetista Italiano Lodovico Lazzareli descobriu e traduziu para o latim um novo manuscrito grego do CH que continha mais três tratados em relação ao recebido por Cosme. Uma nova edição impressa com 17 tratados foi impressa em 1507, contendo no final o Asclépio ou Logo Teleios (Discurso Perfeito)
  • 1554 – O poeta e humanista Adrien Turnebe Francês realizou em Paris uma primeira edição impressa do Corpus Hermeticum completo em grego, que se apoiu em outros manuscriso do CH que continha 17 tratados, aos quais foram acrescentados três fragmentos conservados na antologia que Jean Estobeu coletou no século V.
  • 1574 – François Foix de Cancelle, bispo de Aile, seguiu a edição de Turnebe , depois de dos 14 tratados da edição de Ficino, colocou como tratado os CH XV o conjunto de fragmentos coletados por Estobeu e como tratados XVI, XVII e XVIII os outros três tratados encontrados no manuscrito utilizado por Turnebe, sendo que o que ele estabeleceu como tratado CHVII era apenas um fragmento de um outro tratado mais longo. Essa tradução foi publicada completa em 1579. As edições mais novas do CH retiraram os fragmentos recolhidos por Estobeu.
  • 1591 – O filósofo neoplatônico e humanista italiano Francesco Patrizi realizou uma nova edição italiana do CH em latim, com duas diferenças estruturais em relação as outras edições: 1) Não publicou os três novos tratados encontrados, mas apenas os 14 tratados publicados por Ficino; 2) Além do Asclépio, ele acrescentou em sua nova edição parte do tratado recolhido por Estobeu, chamado Kore Kosmou (Pupila do Mundo)
  • 1614 – Isaac Casaubon publica uma análise textual do CH, no qual ele demonstrava que pela gramática, vocabulário, formas e conteúdos da versão grega desses trabalhos, os textos não poderiam ser mais antigos do que o século II. Para Causabon, o CH é uma simples combinação do cristianismo com conceitos platônicos. No século XX O Padre André Jean Festugiére utiliza argumentos de Causabon e acrescenta outras alegações para depreciar o CH
  • 1945 – Entre os textos coptas encontrados na biblioteca de Nag Hammadi, três são escritos herméticos e Jean Pierre Mahé afirma que “Longe de ser uma palida imitação dos diálogos de Platão, como Festugiére e Causabon acreditavam, os ensinamentos do Trismegisto fazima parte de um gênero já existente na lingua egícia.

Referências:

Trismegisto, Hermes. Corpus Hermeticum. Tradução, edição, introdução e Notas Americo Sommerman. São Paulo: Polar, 2019

Introdução ao Hermetismo Tradicional


 Nesse texto apresento uma versão simplificada das principais ideias do Hermetismo, conforme encontradas nos textos clássicos do Corpus Hermeticum.

 

Rainha Nefertari e Thoth — Fonte da imagem

 

O Corpus Hermeticum

O Corpus Hermeticum é uma coleção de textos de caráter místico, filosófico e iniciático, escrita por volta de 100 a 300 DC. Os textos são atribuídos a Hermes Trismegistos, uma figura lendária cuja origem provavelmente vem do sincretismo entre o deus egípcio Thoth e o deus grego Hermes.

Apesar de sugerir uma descendência direta da filosofia egípcia, os textos não foram encontrados em Hieróglifos, mas em Grego, Latim e Copta. Eles foram reunidos na cidade de Alexandria, no Egito, durante os séculos 2 e 3.

É interessante perceber que Alexandria foi um grande centro de aprendizado, superando até mesmo Athenas. Seu fundador, Alexandre o Grande, conquistou e uniu Grécia, Pérsia, Egito e Índia em um grande império. Culturas que cresceram de forma independente foram trazidas e reunidas para a cidade. Gregos, Judeus, Egípcios, Babilônios, Fenícios e até mesmo Budistas se associaram de forma pacífica.

 

Ilustração da Biblioteca de Alexandria

 

 Os Alexandrinos eram conhecidos por sua grande sede de conhecimento e sua famosa biblioteca reuniu sistematicamente conhecimentos de todo o mundo. Entre os trabalhos reunidos estavam os trabalhos de Euclides, Arquimedes e os trabalhos de matemática, geometria e geografia do astrônomo Ptolomeu. A biblioteca também era rica em conhecimento esotérico — Pitagorismo e Oráculos Caldeus, mitos gregos, filosofia Platônica e Estóica, Judaísmo, Cristianismo, Escolas Gregas de Mistério, Zoroastrismo, Astrologia, Alquimia, Budismo e, claro, religião egípcia, que eram todas estudadas, comparadas e discutidas.

Apesar de sua importância, o Corpus Hermeticum ficou um pouco esquecido, voltando a aparecer em 1463, após a tradução de Marsilio Ficino, a pedido de Cosimo de Medici, o fundador da Nova Academia Platônica. Esse grupo de intelectuais e místicos buscava inspiração na filosofia Pagã e influenciou grandes artistas e pensadores.

Os críticos de Hermes

A princípio acreditava-se que o CH era de uma extrema antiguidade, da época dos faraós, além de dezenas de lendas ligadas a Hermes Trismegistus. Contudo, em 1614 o Hermetismo sofreu um grande impacto. Um pesquisador chamado Isaac Casaubon publicou uma análise textual do CH, no qual ele demonstrava que pela gramática, vocabulário, formas e conteúdos da versão grega desses trabalhos, os textos não poderiam ser mais antigos do que o século II. Segundo Causabon, o CH não teria sido escrito por um sábio egípcio, mas por estudiosos de Alexandria. Sua filosofia não seria nada mais que uma mistura exótica de filosofias Gregas, Cristãs e Judaicas, acrescidos de astrologia e magia.

Causabon foi um grande estudioso da cultura grega em seu tempo e por isso sua crítica foi em geral aceita, fazendo os livros de Hermes serem esquecidos e considerados falsos.

Algumas das críticas levantadas eram verdadeiras. Os livros de Hermes foram escritos por vários autores e não por um sábio ancião e eles certamente foram escritos nos primeiros séculos da nossa era.

Contudo, mesmo os textos do CH terem sidos escritos em Alexandria, todas as evidências modernas sugerem que eles de fato expressam crenças egípcias filtradas de acordo com o entendimento dos estudiosos Gregos daquele período. Quando Causabon escreveu sua crítica, pouco se conhecia do Egito antigo. Os Hieróglifos não tinham sido traduzidos até 2 séculos após sua morte. Consequentemente, muitos estudiosos modernos acreditam que ele estava errado, especialmente após a descoberta dos textos egípcios da pirâmide de Saqqara. Esses hieróglifos de mais de 5000 anos contém doutrinas que são idênticas às expostas no Corpus Hermeticum. Isso sugere que o CH pode realmente conter a sabedoria dos Faraós.

Por causa das passagens que remetem a trabalhos Judeus, Cristão e Gregos, Causabon acreditou que o CH foi forjado, criado a partir de uma miscelânea de outras filosofias, o que faria sentido num contexto onde foram encontrados os textos. Entretanto, mesmo os estudiosos antigos acreditavam que essas tradições sofreram influências do Egito Antigo. Os Judeus viveram muitos anos em exílio no Egito e muitos cristãos viveram na região. Além disso, os Gregos tinham grande respeito pelos Egípcios.

Uma das críticas de Causabon foi de que o CH teria plagiado a obra Timeu de Platão, que inclui as doutrinas de astrologia e reencarnação. Entretanto, é sabido que o mestre de Platão, Pitágoras, ficou 22 anos estudando nos templos do Egito. De acordo com Diógenes Laertius, Platão teria comprado 3 livros de doutrinas pitagóricas baseadas na sabedoria egípcia e adaptado em sua própria obra, Timeus. Desta forma, a semelhança entre os trabalhos de platão e o CH não é uma surpresa.

Apesar de ter sido escrito por estudiosos alexandrinos, o CH possui influências de um conhecimento antigo no qual foi baseado. Ele nos oferece uma das melhores janelas disponíveis para observar o passado remoto do Egito e entender a visão mística que inspirou as incríveis pirâmides de Giza.

 

 

 

Principais conceitos do Hermetismo Tradicional

Santo é Deus, o Pai de Todas as Coisas.
Santo é Deus, cuja Vontade se realiza por meio de Suas potências.
Santo é Deus, que quer ser conhecido e que é conhecido por aqueles
que lhe pertencem.

Tu és Santo, tu que constituíste todas as coisas mediante tua Palavra.
Tu és Santo, tu de quem toda a Natureza é a imagem.

(…)

O Tu que és Inexprimível, Inefável, cujo nome apenas o Silêncio pode nomear,
aceita as oferendas puras de minhas palavras,
pronunciadas de uma alma e de um coração que se voltam completamente para Ti!

Não permitas que eu me extravie!
Dá-me a Gnose, o Conhecimento de nossa essência!
Dá-me a força!
Com essa graça, iluminarei aqueles que estão na ignorância,
meus irmãos, Teus filhos.

Creio em Ti e Te rendo homenagem.
(…)

Hino de Louvor, Corpus Hermeticum

 

Deus no Hermetismo

Apesar de não ser possível definir Deus com palavras, Hermes dá algumas indicações de como contemplá-Lo:

Deus é Uno. Tudo é uma parte do Ser Supremo. Como o número “um”, que é a raiz de todos os outros números seguintes, Deus é a fonte de tudo. Porque ele reúne tudo, sua natureza é paradoxal. Ele é o Criador que cria a Si Mesmo. Ele está sempre escondido de nós, embora também esteja no mundo ao nosso redor. Ele não tem um nome particular, porque todos os nomes se referem a Ele. Deus é ao mesmo tempo os objetos materiais ao nosso redor e os pensamentos imateriais em nossa mente.

Deus é a Mente Suprema. A mente humana é uma imagem da Mente Suprema. Por meio da imaginação é possível percorrer o universo e, como Deus, estar em todos os tempos e lugares.

Tudo existe como uma ideia na Mente de Deus. Ele cria todas as coisas, da mesma forma que nossa mente cria pensamentos. Assim como a natureza da mente é pensar, a natureza de Deus é Criar. Isso não é algo que ele começou a fazer no começo dos tempos. Ele faz isso continuamente, está constantemente criando e nunca terá fim.

Acima de todas as ideias está a Bondade e a Beleza. Essas qualidades pertencem a Deus somente. Elas podem ser encontradas de forma imperfeita no mundo material, mas existem em toda perfeição no mundo imaterial da mente.

Cosmogonia

Em um dos principais textos do CH, Hermes recebe direto em sua Mente uma visão. Nessa visão, é revelada a criação do Universo.

A visão começa com uma luz serena e agradável, mas em seguida se transforma em trevas espantosas e terríveis, espalhando-se em uma espiral, que lembrava o formato de uma serpente.

Essa é visão mística do primeiro ato de criação, equivalente à teoria do Big Bang. Uma explosão de luz e energia aos poucos diminui e se torna o útero do Espaço, no qual o sol e outros planetas nascem.

Esse nascimento, como qualquer outro, é acompanhado de dor e Hermes ouve um grito inarticulado e penetrante, um gemido indescritível. Após isso o Verbo (Logos) acalmou as águas e organizou o Cosmos.

O Verbo é como um projeto que irá organizar o cosmos de uma forma estruturada, a partir do caos primordial. A ciência moderna poderia chamar de leis da natureza.

A estrutura do Universo

Deus cria um princípio organizador — a Mente Cósmica (Demiurgo). Esse princípio organiza a matéria caótica em um belo Cosmos ordenado

A Mente Cósmica ( Demiurgo) representa as leis fundamentais da Natureza, que governam a vida. Por exemplo, um dos princípios pelo qual o Cosmos é organizado é o tempo. Esse princípio produz constante mudança e é por causa dele que as coisas nascem e morrem. A existência do tempo significa que tudo que existe no Cosmos está constantemente mudando, de uma forma mensurável.

 

Deus cria a Mente Cósmica

A Mente Cósmica cria o Cosmos

O Cosmos cria o Tempo

O Tempo cria a Mudança

A Mente Cósmica é uma imagem de Deus

O Cosmos é uma imagem da Mente Cósmica

O Sol é uma imagem do Cosmos

O Homem é uma imagem do Sol

 

A Mente de Deus (Nous), tomada pelo Verbo (Logos), criou os elementos da natureza. Em seguida criou outra inteligência, a Mente Cósmica ( Demiurgo) , um princípio ordenador que organiza a matéria caótica no belo e ordenado Cosmos.

Porque o Cosmos é feito como uma imagem do Criador, ele é também um ser vivente imortal. Durante sua criação, ele foi preenchido com energia, que como a ciência moderna provou, não pode ser criada ou destruída, apenas transformada.

Deus é a fonte dessa energia, que através das Leis da Natureza, cria a vida. A Mente Cósmica recebe a energia a partir de Deus e distribui para todo o Cosmos. Por meio desse processo, o Cosmos é completamente preenchido com Alma — A Força-Vital. Tudo nele está vivo. Nada está morto, nem mesmo as coisas inanimadas. O Cosmos é um grande ser vivo que dá Vida a todos os seres que nele estão. É o Todo que cuida das partes, assim como um pai cuida de seus filhos.

 

Hierarquia e influência dos deuses

Para Governar o Cosmos, a Mente Cósmica (Demiurgo) configurou 7 regentes ou deuses, que por sua vez, envolvem o Mundo Sensível e o governam por meio de Destino. Os 7 regentes são os 5 planetas visíveis (Mercúrio, Vênus, Júpiter, Marte e Saturno), junto com o Sol e a Lua.

Os Regentes derramam de forma ininterrupta uma corrente de Energia em todas as formas da matéria, fazendo com que elas mudem de um estado a outro, num processo que chamamos de nascer e morrer. Os deuses garantem que tudo aconteça de acordo com a Vontade de Deus.

Para garantir que o Homem não utilize seus poderes de uma forma destrutiva, Deus criou o Zodíaco, um mecanismo celestial que controla a sorte dos homens. Poucos homens conseguem escapar das influências do Zodíaco. Entretanto, com a mente iluminada pela Luz de Deus, o homem pode se tornar livre dessas influências celestiais.

 

 

Associação da astrologia com o corpo humano

 

Parte do nosso destino é influenciado pelas posições dos planetas no momento do nosso nascimento. São os deuses controlando nossos corpos e moldando nossas almas. É nosso dever não apenas aceitar nossa sorte, mas ir além disso. Por meio da contemplação de Deus, superar a nossa natureza mortal e acordar nossa alma imortal.

Criação da humanidade

Deus criou a humanidade porque queria uma criatura capaz de apreciar a grande beleza do Cosmos, sua criação. Ele pede a cada um dos deuses (Regentes) que forneça algo em benefício da humanidade. O Sol concede alegria. A lua concede sono. Saturno oferece o limite da necessidade e a força equilibrante da justiça. Júpiter concedeu paz, Marte presenteia com a luta. Vênus oferece amor e Mercúrio a sabedoria.

 

 

VITRIOL (visita interiora terrae rectificando invenies occultum lapidem)

 

No começo os humanos eram apenas alma, sendo impossível cuidar da Terra, como Deus gostaria. Então Deus fornece a cada humano um corpo mortal, que serve de morada para sua alma imortal.

A Natureza é como uma bela mulher, amante do mundo, que produz as sementes da vida. Ao perceber que a alma humana é a imagem de Deus, a beleza magnífica e inesgotável e todas as energias dos sete deuses (Regentes), a Natureza se apaixona pelo Ser Humano. Então o apreende e envolve completamente a alma, se unido em um amor mútuo.

Dessa forma, todos os humanos possuem uma natureza dual, sendo a combinação de uma alma imortal e um corpo mortal. Nós honramos os dois lados de nossa natureza quando servimos Deus e cuidamos do mundo natural para ele.

Finalmente Deus presenteia a humanidade com um último presente — a habilidade de se reproduzir. Mais do que isso, ele faz com que esse processo seja um sacramento sagrado que reflete o casamento da matéria e espírito que criou o Universo.

Ao contemplar o Cosmos, a criação da Mente Cósmica, o Ser Humano também quis criar. Cada um dos Governadores compartilhou com a humanidade um pouco de seu poder criativo.

 

Pirâmide de Giza — Fonte da Imagem

 

Missão do Homem

O CH ensina que o Universo não estará finalizado até que a humanidade exerça a sua parte na História. As Artes e as Ciências inventadas pelos humanos completam o grande ciclo.

No Antigo Egito acreditava-se que todo o conhecimento necessário para que a humanidade sobrevivesse na Terra teria sido ensinado aos seus ancestrais por Isis e Osiris. A deusa Ísis ensinou a arte de semear e criação de animais, e mostrou o uso de ervas e remédios para o cuidado do corpo. Ela ensinou o respeito pelos mortos e como honrar suas memórias com oferendas de frutas e flores. Osíris teria ensinado as leis e a justiça, e fundou os ritos de adoração que manteve os homens humildes e honestos. Ele ordenou os primeiros sacerdotes para que cuidassem da alma do homem por meio da filosofia e ensinamentos.

O Homem foi criado como um veículo pelo qual Deus poderia continuar a trazer Ordem e Beleza ao Cosmos.

 

A composição dual do Homem

O Cosmos é uma imagem de Deus e o homem é uma imagem do Cosmos.

Todos os seres têm Alma (A energia de vida), porém somente o Homem possui o poder da Mente (Nous), com a qual pode contemplar o Cosmos e vir a conhecer a Deus (Gnosis).

Os humanos possuem uma natureza dual. Nós somos uma Mente (Nous) em um corpo físico. A Mente humana é uma imagem da Mente de Deus — Imortal, eterna, divina e livre.

O corpo humano, por outro lado, é controlado pelas leis do Destino, que são governadas pelas estrelas. Essa natureza dual nos coloca acima mesmo dos deuses, que orbitam somente o paraíso e jamais podem sair deles. Os humanos, no entanto, podem estar ao mesmo tempo na Terra e, pelo poder de sua Mente, ascender ao Paraíso.

 


Anubis pesando o coração na balança de Maat

 

 

Encarnação da Alma e influência dos Astros

Todas as almas são fragmentos de uma mesma alma, a Alma do Cosmos.

Todas as almas compartilham da mesma natureza. Elas não são nem masculina, nem feminina, essas características existindo apenas no corpo físico.

Para auxiliar as almas em sua Jornada, Deus possui dois ajudantes: O Guardião das Almas cuida do desencarne das almas e o Condutor de Almas as envia para um corpo físico, que é criado pela Natureza.

Como dito anteriormente, nossas características são governadas pelas qualidades dos deuses que estavam influenciando no momento do nosso encarne. Se no momento do nascimento o deus Regente era calmo, nós seremos calmos por natureza. Se o deus regente possuía tendências bélicas, a pessoa tenderá a ser mais agressiva.

O processo de reencarne é doloroso para a alma, porque a faz esquecer da própria natureza divina a mergulha na influência dos deuses e do destino. O Bem é incompatível com o corpo material, e assim que a alma entra em um corpo ela é aprisionada pela dor e prazer.

Após sair do corpo, a alma individual é julgada pelo chefe dos deuses, para saber se ela foi pura e honrada durante sua encarnação. Almas puras são direcionadas para um paraíso calmo. Almas ignorantes caem novamente no mundo material.

A alma que durante sua vida conheceu a Deus, se torna Todo Mente. Ao sair do corpo, essa alma reconhece que sua natureza é divina e comunga com Deus. Essa alma se torna “Um Deus”

 

    
                                    Pirâmides de Giza — Foto: Sebastien Nagy 

 

Conhecer a Deus

O Propósito da Vida, segundo o CH, é o Conhecimento de Deus. Para conhecer a Deus, nós precisamos nos tornar como Deus. É preciso, com nossa Mente, nos imaginar em todos os lugares e tempos; abraçar todos os opostos; descobrir nossa natureza imortal; Ao expandir nossa mente, nós podemos comungar com a Mente de Deus.

A Mente (Nous) é a parte imortal do ser humano. É a Luz Divina que emana diretamente de Deus. De todos os seres vivos, apenas os humanos têm essa qualidade divina, que permite Conhecer a Deus (Gnosis)

Deus quer que nós mergulhamos em nossa Mente (Nous) e assim nos tornemos totalmente divinos, mesmo que aqueles sigam esse caminho sejam considerados loucos pelas massas ignorantes.

O destino, imposto pelo homem pela roda do Zodíaco, sujeita os seres humanos à dor, nascimento e morte. O problema do homem é que em sua ignorância ele acredita ser apenas um corpo, que irá crescer, sofrer e eventualmente morrer. Sua situação de injustiça e inevitabilidade o leva a machucar a si mesmo e aos outros, seja pelo desejo de mais vida ou pelo medo da morte se aproximando. Esses atos servem mais para afundar a alma ao corpo do que aliviar seu sofrimento.

 

A Religião da “Mente”

Um dos pontos centrais no Hermetismo é o conceito de Gnosis. Esta palavra grega significa conhecimento, mas um tipo diferente do conhecimento comum, chamado pelos gregos de Episteme. Enquanto a episteme se refere ao corpo de ideias que chegam por meio do raciocínio e experiência, a Gnosis é uma espécie de “conhecimento intuitivo das verdades espirituais”. É um tipo de conhecimento mais imediato, direto, uma forma não-discursiva de perceber a realidade. A Gnosis não é alcançada de forma argumentativa, lógica ou empírica. Não pode ser ensinada, embora os meios de alcançá-la tenham sido e continuam sendo ensinadas em grupos esotéricos. Para G.R.S. Mead, a essência da Gnosis é a fé de que o homem pode transcender os limites da dualidade e pode se tornar um ser divino.

Purificando a si mesmos da ignorância é o primeiro degrau na escada que leva ao renascimento. Renascer é o Conhecer de nossa imortalidade.

Aquele que renasce, entra em comunhão com Deus. Mas isso só pode acontecer quando nós silenciamos nossa mente e em contemplação profunda, entramos em contato com nossa parte mais Divina.

 

Conclusão

O Hermetismo é um dos pilares da cultura ocidental. A importância do Corpus Hermeticum é tão grande quanto outros textos esotéricos, como os Upanishads, o Dhammapada e Tao Te Ching.

Grandes filósofos como Clemente de Alexandria, Lactâncio, Jâmblico, Marcílio Ficino, pico Della Mirandola, Cornelius Agrippa, Paracelso, Jacob Boheme, Goethe, entre outros, foram alguns grandes pensadores que reconheceram a sabedoria descrita nesses textos.

Conhecendo sua origem, fica fácil perceber a influência dessa filosofia nos círculos esotéricos contemporâneos. O trabalho com sistemas planetários, que mais tarde foi incorporada na Cabala Hermética; a influência dos Astros, calculado no Mapa Astral; ferramentas para tentar prever a sorte são alguns exemplos de como o pensamento hermético se fez sempre presente.

Entretanto, pouca ênfase é dada ao lado metafísico e teológico do Hermetismo. A Gnose, os métodos de “Conhecer a Deus” que, segundo o CH, é principal objetivo do Homem, em geral é pouco discutido, perdendo muitas oportunidades de reflexões e ampliação do tema.

Mesmo que poucos textos originais do Hermetismo tenham sobrevivido, é possível perceber a profundidade de seus ensinamentos. O Corpus Hermeticum apresenta uma interessante cosmovisão e conceitos importantes que também são abordados por outras correntes mistico-religiosas. Por exemplo, a Gnose, a transcendência da dualidade, a influência do corpo físico no corpo Espiritual são assuntos muito discutidos em correntes gnósticas. Já o método do Silêncio Interior, a contemplação, a superação da dualidade e da ignorância (Avidyā) são temas importantes em diversas escolas do Budismo.

Comparando os elementos do Corpus Hermeticum com os textos que já foram recuperados do Antigo Egito, é possível cada vez mais se adentrar nos Mistérios que um dia foram ensinados por grandes Mestres do passado.

Esse texto é apenas uma visão simplificada do Corpus Hermeticum e Hermetismo Tradicional. Tem o objetivo de ser uma introdução acessível ao tema e não pretende esgotá-lo ou servir de referências acadêmicas.

 

Fontes

Ebeling, Florian. The secret history of Hermes Trimegistus: hermeticism from ancient to modern times. Cornell University Press, 2007

Freke T, Gandy P. The Hermetica: The Lost Wisdom of the Pharaoh, Penguin Putnam Inc, New York, 1997

Lachman, Gary. The Quest For Hermes Trismegistus. Floris Books, 2011

Trismegisto, Hermes. Corpus Hermeticum. Tradução, edição, introdução e Notas Americo Sommerman. São Paulo: Polar, 2019

 

 

 

 

 

 

 

 

Hermetismo Tradicional e Moderno — Parte 3

 

 

Uma tentativa de comparação entre o Caibalion e Textos Herméticos clássicos

O principal argumento do Caibalion é que o Universo é regido por Sete Princípios Universais, a saber:

I. Princípio do Mentalismo

II. Princípio da Correspondência

III. Princípio da Vibração

IV. Princípio da Polaridade

V. Princípio do Ritmo

VI. Princípio da Causa e Efeito

VII. Princípio do Gênero

Toda a Filosofia Hermética estaria baseada nesses princípios.

Para Chapel (2013) , apenas os Princípios do Mentalismo, Correspondência, Polaridade e Gênero podem ser encontrados na filosofia Hermética Tradicional. A diferença estaria nos outros Princípios: Vibração, Ritmo e Causa e Efeito.

Entretanto, com uma pequena busca é possível identificar no CH trechos que se relacionam diretamente ou podem ter servido de inspiração para os Princípios do Caibalion, conforme segue:

 

Princípio do Mentalismo

“O Todo é Mente; o Universo é Mental.”

O Hermetismo clássico teve grandes influências do Médio Platonismo, que considerava que o mundo era uma imagem de Deus e que as Ideias são pensamentos do Deus Supremo (Nous), ou seja, estão contidas em sua mente. É Interessante perceber que o termo grego Nous, que às vezes é traduzido como “mente”, “espírito” ou “inteligência”, refere-se a uma razão intuitiva, que difere da Dianoia, ao qual se aproxima do que entendemos como intelecto, a razão discursiva, que procede por meio de definições e demonstrações.

O Caibalion está, portanto, de acordo com o Hermetismo e, de fato, com a totalidade do meio platônico, quando afirma que o “Todo é Mente”:

“Este Princípio contém a verdade de que Tudo é Mente. Explica que O TODO (que é a Realidade Substancial que subjaz a todas as manifestações e aparências que conhecemos pelo nome de “Universo Material”; “Fenômenos da Vida”; “Matéria”; “Energia” e, em suma, tudo o que é evidente a nossos sentidos materiais) é ESPÍRITO ,que em si mesmo é INCOGNOSCÍVEL e INDEFINÍVEL , mas pode ser considerado como uma MENTE UNIVERSAL , INFINITA e VIVENTE . Também explica que o mundo ou universo fenomenal não passa de uma Criação Mental do TODO , sujeita às Leis das Coisas Criadas, e que o universo, como um todo, em suas partes ou unidades, tem sua existência na mente do TODO , em cuja Mente “vivemos, nos movemos e temos nossa existência — Caibalion edição definitiva

No Corpus Hermeticum:

Logo no início do CH, Poimandres explica o mito de criação de acordo com o Nous. Explica também que ele mesmo é a Luz que existia antes, na natureza úmida e turva:

“Essa luz sou eu! Sou a Inteligência (Nous), teu Deus, Aquele que existe antes da natureza úmida que saiu das trevas, enquanto a Palavra Luminosa (Logos) que emana da Inteligência é o Filho de Deus” — CH I, 6

Continuando, Poimandres explica que o Nous gerou outro Nous a partir do Verbo e esse gerou os elementos. O segundo Nous, o Artífice continuou criando e gerou sete governadores e esferas:

“Hermes: De Onde vieram os elementos da natureza?

Poimandres: Da vontade de Deus, que tendo tomado de em si o Verbo (Logos) e contemplado o belo Mundo Arquetípico, construiu o universo conforme esse modo, com elementos tirados dela mesmo e com germes de almas. Ora, a Inteligência-Divina (Nous), sendo masculina e feminina, existindo como Vida e Luz, engendrou, pela Palavra, outra Inteligência, Criadora (outro Nous, Demiurgo): O Deus do fogo e do fluido, que por sua vez, configurou sete regentes ou governadores (…)” — CH I, 8

“Considera, por exemplo, o seguinte argumento: tudo está em Deus, mas não como se Ele estivesse em um lugar, pois além de um lugar ser um corpo, também é um corpo imóvel, e o que está em um lugar não tem movimento. Em Deus todas as coisas estão na imaginação incorpórea (…)” — CH XI, 18

“Eleva-te para além de toda altura, desce abaixo de toda profundidade; reúne em ti todas as sensações das coisas criadas: da água, do fogo, do seco, do úmido. Imagina que estás ao mesmo tempo em toda parte, na terra, no mar, no céu, que ja- mais nasceste, que ainda és um embrião, que és jovem, velho, que estás morto, que estás além da morte. Se abarcares com tua mente todas essas coisas de uma vez, os tempos, os lugares, as coisas, as qualidades, as quantidades, então poderás compreender a Deus” — CH XI, 20

Princípio da Correspondência

“Assim em cima como embaixo; assim embaixo como em cima.” — Caibalion

A frase do Caibalion, uma citação direta da Tábua de Esmeralda, afirma que existe uma correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo, e certa harmonia entre os seres dos diversos planos.

Novamente, Platão parece ser a ligação escondida entre ambos os livros. A doutrina de que o mundo físico é um reflexo das formas eternas é comum ao Platonismo em geral e portanto ao Hermetismo. Platão explica o mundo sensível da seguinte maneira: Há um modelo (o mundo ideal), existe uma cópia (o mundo sensível) e existe um Artífice, que produziu uma cópia servindo-se de modelo. O mundo inteligível (o modelo) é eterno, como é eterno tambeḿ o Artificie (a inteligência) (Reale, 2007)

No Corpus Hermeticum:

“Todas as coisas dependem do Alto, mas são divididas em Formas; e eu explicarei como isso ocorre. As espécies de cada gênero seguem a Forma de seu gênero, de tal maneira que o gênero é um todo e a espécie é uma parte do gênero. Assim, os deuses formam um gênero, os daimons também. Do mesmo modo, os seres humanos, os pássaros e todos os entes que o Mundo contém constituem gêneros que produzem espécies semelhantes a eles. (…) Advém daí que embora todos os gêneros sejam imortais, nem todas as espécies são imortais. E, no caso da divindade, o gênero e todas as espécies são imortais; mas nos outros entes, a eternidade pertence somente ao gênero: ele morre em suas espécies e se conserva pela fecundidade reprodutora. Portanto, há espécies mortais. Por exemplo: o ser humano é mortal, mas a humanidade é imortal.” — Asclepius, 4

“Portanto, primeiro há os deuses chefes de todas as espécies. Depois deles,vêm os deuses cuja essência tem um chefe. Estes últimos são deuses sensoriais e feitos à semelhança de sua origem dupla: são eles que produzem todas as coisas por meio da sua natureza sensorial e cada um deles ilumina suas obras um por meio dos outros (…)” Asclépius, 19

“Todavia, o Ser Humano, quando percebeu a criação que o Criador (Demiurgo) tinha produzido no fogo, também quis criar uma obra — e teve permissão do Pai para fazer isso. Tendo entrado na esfera da criação, percebeu as criações de seus irmãos, os Governadores, e obteve o poder de cada um deles, pois se enamoraram dele; e cada um lhe deu parte de sua governança. Então, tendo aprendido a conhecer a essência deles e tendo passado a participar da natureza deles, ele quis ultrapassar o limite da periferia dos círculos e conhecer a potência daquele que reina sobre o fogo.” — CH I, 13

“A eternidade é a imagem de Deus, o Mundo é imagem da Eternidade, o Sol é imagem do Mundo, o ser humano é uma imagem do Sol. As pessoas chamam a transformação de morte, porque o corpo se decompõe e a vida cessa de ser visível. No entanto, devo te dizer, meu querido Hermes, que todas essas coisas que foram dissolvidas, e o próprio Mundo, se transformam continuamente. A cada dia alguma parte do Mundo se oculta no não-manifestado, mas ele nunca se dissolve. Essas revoluções e esses mistérios são as fases do Mundo. A rotação é um retorno, o desaparecimento é uma renovação” — CH XI, 15

“Portanto, se queres ver Deus, pensa no Sol, pensa no curso da Lua, pensa na ordem dos astros. Quem mantém essa ordem? Afinal, toda ordem é determinada por seu número e o seu lugar. O Sol é o maior dos deuses do céu; todos os deuses celestes o reconhecem como seu rei e seu chefe; e esse astro, maior do que a terra e o mar, permite que astros bem menores que ele circulem acima dele. A quem ele reverência, a quem ele teme, meu filho? Os cursos de cada um desses astros no céu são diferentes e desiguais; quem fixou para cada um deles a direção e o tamanho do seu curso? — CH V, 3

“Os entes superiores cuidam dos inferiores; os deuses cuidam dos seres humanos; os seres humanos cuidam dos animais sem razão; e Deus cuida de todos, pois Ele é superior a todos e vela por todos. As potências de Deus são como raios; as potências da Natureza são como raios do Mundo; e as artes e ciências são como raios dos seres humanos. As potências ou energias agem através do Mundo e agem no ser humano por meio das potências físicas do Mundo; as potências da Natureza agem por meio dos elementos; os seres humanos, por meio das artes e das ciências.” — CH X, 22

Princípio da Polaridade

“Tudo é Duplo; tudo tem pólos; tudo tem seu par de opostos; semelhante e dessemelhante são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se encaixam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados. — Caibalion

Este é um conceito chave na cosmogonia Cabalística e também no mito egípcio de Hermópolis (Cidade de Hermes) que está na origem de todos os outros mitos egípcios (de Heliópolis, Mênfis e Tebas), no qual Thot é aquele que nasce dos Oito Deuses Primordiais, chamados de Ogdóada Primordial. Nesse mito, quatro “casais de deuses” dão origem a Deus enquanto Ser(Amon). E eles são 1) Nun e Nunete, o Oceano da Energia Primordial e a Oceano da Energia primordial; 2) Heh e Hehete — o Infinito e a Infinito; 3) Kek e Kekete — o Treva Primordial e a Treva Primordial; e 4) Tenemu e Tenemumete — o Errático ou instável Primordial e a Errática ou instável Primordial;

John Michael Greer articula este princípio que se aplica à filosofia Hermética, quando afirma, “a ideia essencial subjacente ao princípio da polaridade é que qualquer coisa no universo pode ser entendida, em termos mágicos, como uma relação energética entre duas forças opostas, resultando em uma terceira, uma força balanceada.

No Corpus Hermeticum:

“(…) E Ele quis que todos os seres humanos tivessem duas naturezas: uniu-as em uma mescla única e misturou- -as em proporção conveniente. Foi assim que Ele formou o ser humano com espírito (Pneuma) e corpo, isto é: com uma natureza eterna e uma natureza mortal, a fim de que um ente vivo assim constituído pudesse, devido à sua origem dupla, admirar e louvar o que é celeste e eterno, e cultivar e governar o que está sobre a terra. Quando falo aqui das coisas mortais, não estou falando dos dois elementos que estão submetidos ao ser humano: a terra e a água, mas das coisas que o ser humano faz com esses elementos, como: o cultivo do solo, as pastagens, a construção, os portos, a navegação, as relações sociais, as trocas mútuas — que são todas elas as ligações mais fortes entre os seres humanos e entre os seres humanos e essa parte do Mundo que é feita ações” — Asclépio 8

“Tudo está repleto de Luz, sem que haja fogo em lugar algum, pois da amizade e da combinação dos contrários e dos dessemelhantes nasceu a Luz, que resplandece pela potência de Deus, que á fonte de todo Bem, o chefe de toda a ordem e o condutor dos sete mundos”, CH XI, 7

“É que toda a ciẽncia é incorpórea e utiliza a mente por instrumento, assim como a mente utiliza o corpo. É desse modo, que, ambos, — tanto os objetos inteligíveis como os objetos materiais — vêm ao corpo, pois tudo deve resultar da oposição dos contrários e não pode ser de outro modo” — CH X,10

Princípio do Gênero

“O Gênero está em tudo; tudo tem seu Princípio Masculino e seu Princípio Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos.” — Caibalion

Esse é talvez o Princípio mais fácil de ser encontrado no Corpus Hermeticum. No próprio mito grego de Hermes existe essa referência aos dois gêneros. Em um dos mitos, Hermes (o filho de Zeus) e Afrodite (deusa da beleza e do amor sexual) têm um filho, cujo nome era Hermaphroditus. Este filho tinha uma beleza tão estonteante que despertou a paixão de uma ninfa. A Ninfa, tomada por seus sentimentos, colou-se ao corpo desse filho e ambos tornaram-se um só.

No Corpus Hermeticum:

“Ora, a Inteligência-Deus (Nous), sendo masculina e feminina, existindo como Vida e Luz, engendrou, pela Palavra, outra Inteligência, Criadora (outro Nous, Demiurgo)…” — CH I, 9

“Completado esse período, a ligadura que unia todas as coisas foi rompida pela vontade de Deus; pois todos os animais que até então eram andróginos, foram separados em dois no mesmo momento que o Ser Humano, e assim, se tornam machos e fêmeas. E então Deus disse, com uma palavra Santa: Crescei em crescimento e multiplicai em multidão…” — CH I, 18

“Asclépio: Então está dizendo, Trismegisto, que Deus participa dos dois Sexos? Hermes: Sim, Asclépio. E Não é apenas Deus, mas de todos os entes animados e inanimados. Explica-se: é impossível que qualquer coisa que existe seja infecunda” — Asclepius, 21

Princípio da Vibração

“Nada está parado; tudo se move; tudo vibra.” — Caibalion

No Corpus Hermeticum:

“Tat: Meu pai, a Terra não te parece imóvel?

Hermes: Não, meu filho. Pelo contrário: há nela vários movimentos, mesmo ela sendo estável. Não seria absurdo pensar que ela é imóvel — ela, que é nutridora de todos os entes, que faz tudo nascer e crescer? não pode haver produção sem movimento. É uma coisa ridícula perguntar se um quarto do Mundo é Inerte, pois um corpo imóvel significa apenas inércia” — CH XII, 17

“O Mundo move-se na Vida da Eternidade em si mesma. É nessa mesma Eternidade da Vida que reside seu lugar. Ele não haverá de se deter jamais, ele jamais se corromperá, uma vez que a permanência da Vida Eterna o envolve e o protege como uma muralha (…)” Asclépius, 30.

“Asclépio: O Mundo muda também de aparência, Trismegisto?

Hermes: Asclépio, parece que estavas dormindo durante esta explicação. O que é o Mundo e do que ele se comporia se não fosse de tudo o que nasce? Então tua pergunta refere-se ao céu, à terra e aos elementos! Afinal, o que mais muda tão frequentemente de aparência? O céu é chuvoso ou seco, quente ou frio, claro ou nublado — eis várias das mudanças de aspecto em um mesmo Tipo Uniforme. A terra muda continuamente de aspecto quando ela faz seus frutos nascerem, quando os alimenta, quando carrega produtos tão diversos em qualidades e quantidade: aqui repouso, acolá movimento, e toda uma diversidade de árvores, de flores, de grãos, de propriedades, de odores, de sabores, de formas. O fogo também tem suas transformações múltiplas e divinas. O Sol e a Lua tambeḿ tem todo tipo de aspectos: de certo modo parecem os nossos espelhos, que produzem formas semelhantes mediante reflexos” — Asclépio, 36

Princípio do Ritmo

“Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.”

No Corpus Hermeticum esse Princípio pode ser encontrado em partes que discutem a reencarnação e metempsicose:

“O espaço que se estende entre a Terra e o Céu foi dividido em regiões, meu filho Horus, com mesura e justa proporção. Essas regiões receberam de nossos ancestrais diferentes nomes: uns as chamam de “zonas”; outros, de “firmamentos”; outros, de “envoltórios”. É para lá que vão e de la que vêm as almas que se separam dos corpos e as que ainda não desceram aos corpos (…) 2. Assim, meu filho, as almas destinadas a reinar aqui embaixo partem das zonas mais altas, e quando elas se desprendem dos corpos é para lá que elas retornam, ou mesmo para ainda mais alto, a menos que tenham agido contrariamente à dignidade de sua natureza e às leis de Deus. Nesse caso, a providência do alto faz com que elas desçam às regiões inferiores, conforme a medida de suas faltas, do mesmo modo que conduz outras almas, menos potentes e menos dignas, das zonas inferiores a lugares mais ele” — Pupila do Mundo fragmento IV, 1- 2

“Poimandres: Primeiro, quando o corpo material morre, [o ser humano] entrega esse corpo às metamorfoses e a forma visível que ele tinha desaparece, e entrega ao dáimon o seu eu habitual, a partir de então inativo, e os sentidos retornam às suas respectivas fontes, das quais voltam a ser parte e são de novo misturados com as energias [do mundo], enquanto as paixões e os desejos voltam para a natureza irracional” — CH I, 24

“O Mundo tem um só sentimento e um só pensamento: criar todas as coisas e depois desfazê-las nele mesmo. Ele é o instrumento da vontade de Deus, e seu papel é receber as sementes divinas, conservá-las, produzir todas as coisas, dissolvê-las e renová las (…)”CH IX, 6

“Eis aí como será a velhice do Mundo: irreligião e desordem, confusão de toda regra e de todo bem. Quando todas essas coisas tiverem se realizado, Asclépio, então o Senhor e Pai, o Deus soberano que governa a unidade do Mundo, ao ver os hábitos e as ações dos seres humanos, corrigirá esses males mediante um ato de Sua Vontade e de Sua Bondade Divina. Para colocar um fim ao erro e à corrupção geral, ele mergulhará o mundo num dilúvio ou o consumirá pelo fogo ou o destruirá por guerras e epidemias; depois, dará de novo ao Mundo sua beleza primeira, a fim de que o Mundo volte a parecer digno de ser admirado e venerado pelos seres humanos, que viverão, então, com contí- nuos hinos de louvores e bênçãos. Eis o que será este renascimento do Mundo: uma renovação de todas as coisas boas, uma restauração santa e solene da própria natureza, reordenada no transcorrer do tempo pela Vontade Divina, que é e que sempre foi sem início e sem fim. Explica-se: a Vontade de Deus não tem início: ela é sempre ela mesma e, o que ela sempre foi, ela permanece sendo eternamente. É que a deliberação da Vontade de Deus nada mais é do que sua própria essência”. — Asclepius, 26

“Quanto ao movimento do Mundo, ele é o resultado de uma operação dupla: por um lado, ele é vivificado pela eternidade que o envolve; por outro lado, ele vivifica todos os entes que ele contém, diversificado todas as coisas de acordo com números e tempos fixos e determinados. Pela ação do Sol e das estrelas, tudo é classificado no tempo conforme uma lei divina. O tempo terrestre se dá a conhecer pelo estado da atmosfera, pela alternância entre estações frias e quentes, o tempo celeste se distingue pela revolução dos astros, que retornam periodicamente aos mesmos lugares. O mundo é o receptáculo do tempo, cujo curso e movimento mantém a vida. o tempo se mantém conforme uma regra fixa; e é essa organização do tempo que produz a renovação de todas as coisas no Mundo, por meio do retorno alternado das estações.” Asclépius, 30.

Princípio da Causa e efeito

“Toda Causa tem seu Efeito; todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso nada mais é que um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei. — Caibalion

No Corpus Hermeticum esse Princípio aparece de duas formas. Quando é explicado sobre a Causa Primeira de tudo, que é Deus; e também quando é abordado uma espécie de julgamento e punição das ações humanos pelos daimons:

“Todas as coisas manifestas tiveram um início, um nascimento e foram criadas, não de si mesmas, mas de outra coisa. As coisas criadas são numerosas — ou melhor, todas as coisas manifestadas que são diferentes e não semelhantes umas às outras — nascem de outra coisa. Portanto, há algo ou alguém que as fez e que tem de ser incriado e anterior a toda a criação” — CH XIV, 2

Agora, do mesmo modo que a luz do Sol é incessante, assim também sua fecundidade jamais se interrompe, nem quanto ao lugar nem quanto à produção. E o Sol tem ao redor de si muitos coros de daimons, semelhantes a batalhões de muitos exércitos, que, embora coabitando com os mortais, não se separam dos imortais. Lá do alto, eles acolheram a região dos seres humanos, e vigiam os afazeres humanos. É assim que eles realizam o que os deuses lhes ordenam para punir a impiedade, e o fazem mediante tempestades, ciclones, furacões, manifestações ígneas, tremores de terra, e também fomes e guerras. — CH XVI, 10

“Tendo dito essas coisas, meu filho Hórus, Deus lhes gratificou com todos os sopros e assim falou: “Não é por acaso que determinei as mudanças de vosso estado; mas, do mesmo modo que vós vos transformareis em algo pior se cometerdes alguma ação vil, vos transformareis em algo melhor se tomar- des resoluções dignas de vossa origem, pois serei eu, e ne- nhum outro, vosso vigia e vosso juiz. Reconhecei, então, que será por causa de vossas faltas anteriores que sereis punidas e aprisionadas nos corpos” — Pupila do mundo Fragmento I, 40

Divergências e outras críticas

Segundo Chapel, adiferença mais evidente do Caibalion para Hermetismo Tradicional é o foco dos textos. O foco no Corpus Hermeticum é a Gnose, conhecimento experimental da divindade, Deus é a causa última do Universo. O objetivo das discussões sobre cosmologia e criação é trazer admiração, adoração e união com o Deus Supremo. Por outro lado, segundo o autor, o foco do Caibalion estaria na Transmutação Mental e o conhecimento das Leis Universais seria apenas um meio de alcançar tal objetivo.

Continuando, o autor diz que a Mente no Corpus Herméticum não é a mesma mente do Caibalion. O CH distingue Mente (Nous) como o Deus Supremo, o Uno, o Bem — e o segundo Deus ou demiurgo chamado o logos. O pensamento do Caibalion é decididamente focado em logos e não no Nous. Enquanto que o CH busca a união com a Mente Divina, o Caibalion apenas comenta que o mundo existe na Mente macrocósmica, mas em seguida muda muda seu foco para a transmutação da mente microcósmica do indivíduo.

Para Lachman (2011), a Gnose também é o ponto central do Corpus Hermeticum e do Hermetismo, que ele chama de “Religião da Mente”. Essa palavra grega apesar de ser traduzida para conhecimento, é uma forma bem diferente do conhecimento comum. A Gnose seria um “conhecimento intuitivo sobre as verdades espirituais”. Seria uma cognição imediata, direta, não discursiva da realidade. O que uma pessoa descobre em gnosis não é alcançado observando de forma argumentativa, lógica ou empírica. É algo que não pode ser ensinado nas escolas, apesar dos meios para alcançá-la foram e continuam sendo ensinadas por grupos Hermetistas.

De fato, em nenhum momento o Caibalion comenta sobre Gnose. Existe um trabalho interno, uma progressão por meio de uma evolução física, mental e espiritual, onde as vibrações aumentariam de forma sucessiva, manifestando diferentes estágios mentais até a reintegração ao Todo, o Espírito Absoluto. Algumas características de Todo são citadas, como Incognoscível, Infinito, Absoluto, Eterno e Imutável. Mas daí em diante, pouca ênfase é dada ao assunto.

Lachman também é da opinião de que nem os Sete Princípios do Caibalion, nem a Lei da Atração do Segredo aparecem no Corpus Hermeticum ou textos Herméticos em geral e o tipo de riqueza e felicidade que os Três Inicidaos e Rhonda Byrnes (autora de O Segredo) têm em mente não tem nada a ver com a proposta Hermética.

Por outro lado, na introdução do Corpus Hermeticum, Sommerman comenta que a Iniciação Hermética Tradicional ou a via de Hermes descrita no CH é a “via da imortalidade” e apresenta-se em três etapas:

1 — Conhecer a si mesmo

2 — Conhecer a Deus

3 — A divinização do ser humano.

Essas etapas correspondem a três etapas da Grande Obra alquímica, descritos em textos tradicionais, e pode ter relação com a alquimia mental citada no Caibalion, sendo esse um pequeno ponto de conexão entre ambos. Por exemplo, no Caibalion também é abordada a superação de desejos básicos e impulsos individuais em busca de faculdades mais elevadas sendo isso um pré-requisito para a transmutação mental.

Conclusão

A corrente de pensamento Hermética Tradicional é vasta, composta por diversos textos e já foi bem discutida por grandes filósofos e pensadores no decorrer da história, como Clemente de Alexandria, Marcilio Ficino, Paracelso e muitos outros. É um fato que o Corpus Herméticum é mais abrangente e complexo do que o Caibalion. Sua proposta e objetivos também são bem diferentes.

Entretanto, o Caibalion pode ser usado como introdução ao tema, pois como demonstrado, todos os seus princípios aparecem de alguma forma no Corpus Hermeticum. Os Princípios podem ser úteis para identificar padrões e metáforas nos textos do Hermetismo Tradicional, visto que refletem, mesmo que em alguns momentos de forma obscura, o pensamento Hermético. Por exemplo, os Princípio do Gênero e da Polaridade, que são os mais evidentes nos textos referidos.

A falta de ênfase na Gnose no Caibalion é realmente crítica e pode levar a grandes erros de entendimento sobre o objetivo da Filosofia Hermética. O Caibalion, por ser mais pragmático, pode levar o leitor a entender a filosofia hermética apenas como algo do mundo Imanente, em vez da busca de conhecimento Transcendente. Por exemplo, o leitor pode cair no mentalismo comum, na tentativa de manipulação, alcance de objetivos materiais, o que se afasta e muito do objetivo do Hermetismo Tradicional. Como dito anteriormente, a ênfase nos processos mentais pode ter sido uma influência do Atkinson que também era adepto do mentalismo e assuntos relacionados.

A proposta de Transmutação Mental do Caibalion está alinhada com o “Caminho de Hermes”, conforme comentado. O Caibalion se torna assim uma pequena iniciação à filosofia Hermética, que não pode ser resumida em apenas alguns Princípios ou aforismos, mas quanto mais se conhece, mais profundo fica.

Outros temas que poderiam ser abordados são a diferença de cosmologia, os possíveis planos de existência e também o papel exercido por daimons e outros seres citados nas obras.

Referências Bibliográficas

Atkinson, W. Walker.. O Caibalion: Edição Definitiva e Comentada. Editora Pensamento, 2018

Chapel, Nicholas E., The Kybalion’s New Clothes: An Early 20th Century Text’s Dubious Association with Hermeticism. Journal of the Western Mystery Tradition №24, Vol. 3. Vernall Equinox, 2013. Disponível em http://www.jwmt.org/v3n24/chapel.html . Uma ótima tradução pode ser encontrada em http://cosmoseconsciencia.blogspot.com/2016/06/a-roupa-nova-do-caibalion.html

Japiassú, H. Marcondes, D.. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Lachman, Gary. The Quest for Hermes Trismegistus From Ancient Egypt to the Modern World. Floris Books, 2011

Machado, Paula Sandrine. O sexo dos anjos: um olhar sobre a anatomia e a produção do sexo (como se fosse) natural. Campinas: Cad. Pagu no.24 Jan./June 2005

Reale, Giv.; Antiseri, D. Historia Da Filosofia Vol. I. Filosofia pagã antiga. São Paulo : Paulus, 2003

Trismegisto, Hermes. Corpus Hermeticum. Tradução, edição, introdução e Notas Americo Sommerman. São Paulo: Polar, 2019

Hermetismo Tradicional e Moderno — Parte 2


O Caibalion e o Hermetismo Moderno

Desde a sua publicação em 1908, o Caibalion trouxe consigo diversas polêmicas e mistérios. A obra propõe a ser um resumo da Filosofia Hermética, a partir de Sete Princípios Universais, que estariam espalhados por todos os países e em todas as religiões. Se trataria pois de uma Doutrina Secreta, um Conhecimento que serviria como Chave Mestra para que o estudante possa “abrir todas as portas internas que conduzem ao Templo do Mistério”

Apesar da obra ter sido assinada por “Três Iniciados”, o conteúdo se apoia nos ensinamentos da figura de Hermes Trismegistos, o escriba dos deuses que viveu no Antigo Egito, quando a raça humana estava em sua infância. Esse Hermes, chamado de Mestres dos Mestres, teria sido contemporâneo de Abraão.

Atualmente, as edições do Caibalion apontam como verdadeiro autor William Walker Atkinson, um ex-advogado, autor de cerca de cem títulos e diversos artigos sobre mesmerismo, habilidade para vendas, psicologia, yoga, budismo, treino para memória, ocultismo prático entre outros assuntos. Atkinson também foi editor de revistas e um dos precursores da escola de Novo Pensamento. Alguns de seus outros pseudônimos, além de Três Iniciados, incluem Yogue Ramacharaka e Theron Q. Dumont.

William Walker Atkinson — Fonte: Wikipedia

Embora não existam registros da participação do autor em escolas esotéricas, existe alguma convergência de suas publicações com os escritos de uma escola muito ativa na mesma época e cidade em que o autor passou parte de sua vida. A Fraternidade Hermética de Atlantis, Luxor e Elephantae era liderada por W.P. Phelon e sua esposa, e promovia diversos encontros em Chicago, além de produzir um periódico mensal chamado The Hermetist, que contava com alguns destaques na área de Novo Pensamento.

O Novo Pensamento

Como dito anteriormente, William Atkinson foi um dos precursores do Novo Pensamento, o que pode ter influenciado a sua visão sobre o conteúdo hermético original.

O Novo Pensamento foi um movimento que se desenvolveu principalmente nos Estados Unidos, e propunha desenvolver o potencial humano, obtenção de saúde, sucesso, felicidade e prosperidade através do poder da mente. Esse movimento se originou na reinterpretação pragmática dos conceitos mentalistas que circulavam no século XIX por uma série de filósofos populares, publicitários e diversas religiões mind-cure.

Entre as crenças desse movimento estão a de que as doenças, sobretudo o câncer, são resultados de acúmulos de maus pensamentos e que precisam ser combatidos de dentro para fora.

Muitos autores utilizaram as ideias desse movimento em seus livros, sobretudo na área de auto-ajuda, vendas e como conseguir dinheiro. Mais recentemente, em 2007, Rhonda Byrne publicou O Segredo que vendeu mais de 19 milhões de cópias no mundo todo (informação de 2017)

O Novo Pensamento perdeu força no decorrer dos anos, porém muitas de suas ideias foram incorporadas à cultura norte-americana e disseminadas em outros países.

Uma estratégia comum do movimento Novo Pensamento era apresentar idéias recentes com “roupas antigas”, ou seja, apresentar como um produto do pensamento antigo, para que ele pareça mais respeitável e tradicional do que realmente é.

Mesmo a palavra Caibalion (em inglês Kybalion) nunca foi usada antes de aparecer no livro publicado. O Sufixo -ion sugere uma origem grega, mas não tem nenhum sentido se traduzido. Alguns pesquisadores especulam uma origem no nome da deusa grega Cibele ou mesmo uma referência à Cabala Judaica, mas como nenhum dos dois assuntos são abordados no livro, pode se tratar de apenas uma coincidência.

Em 1912, William Atkinson em seu livro The Secret of Mental Magic propõe alguns exercícios num cenário competitivo entre duas pessoa:

Exercício 1 Olhe nos olhos de seu amigo (ou nos seus próprios olhos, no espelho) e diga mentalmente: “Eu sou mais forte do que você”. Coloque no seu olhar tanto sentimento de força quanto possível.

Exercício 2 Diga mentalmente: “Eu sou mais Positivo que você — o meu olhar está além do seu”, impelindo tanta positividade quanto possível ao seu olhar, positividade inspirada, é claro, pelo sentimento.

Exercício 3 Diga e pense: “Você tem medo de mim − Eu estou fazendo você sentir a minha força”, impelindo sentimento no seu olhar. (Bernardo S. M. em tradução a Atkinson, 2015)

É interessante perceber certa diferença no conteúdo e objetivos entre as duas obras citadas por William Atkinson. Enquanto o Caibalion tem um cunho quase religioso, e se propõe a ser uma Chave para os Grandes Mistérios, outras obras de Atkinson parecem seguir mais no seguimento de auto-ajuda e manipulação através do mentalismo.

Essa diferença pode colocar dúvidas sobre a real autoria em ambas as obras. Entretanto alguns pesquisadores afirmam que existe muito em comum no Caibalion com textos anterios de Atkinson, sobretudo as leis universais. Também é afirmado que na edição de 1912 de Who’s Who in America, o próprio autor teria incluido o Caibalion entre suas obras publicadas. O estilo, tom, voz e pecualiaridades na escolha das palavras também condizem com o autor em obras publicadas na mesma época. A ênfase m transmutação mental e lei da atração reforçam essa tese:

“Em Vibração do Pensamento ou a Lei da Atração no Mundo do Pensamento, publicado contemporaneamente ao Caibalion, ele usa especificamente a frase “Transmutação de Pensamento”, e refere-se a este “segredo da Vontade” como “a chave mágica que abre todas as portas. Ele desenvolve ainda mais esta ideia da “chave antiga” em A Lei do Novo Pensamento, quando afirma que “os escritores antigos cuidadosamente colocaram fragmentos de […] verdade esotérica dentre os escritos de grande circulação, sabendo que apenas aqueles com a chave poderiam ler…” Ele continua,”[A] idéia da Unidade do Todo […] está no centro de todo o pensamento religioso, embora oculto, até que seja encontrada a chave. É a chave que abre todas as portas.” (Chapel, 2013)

Apesar de não ser uma prova da autoria de Atkinson no Caibalion, as informações acima revelam muitos pontos em comum, como estilo e conteúdo do autor, o que pode ou não ser resultado de materiais que já circulavam na época.

 

Referências Bibliográficas

Atkinson, W. Walker.. O Caibalion: Edição Definitiva e Comentada. Editora Pensamento, 2018

Bernardo S. M., Monica. The self-help literature and the power of the mind. Anuac, 2015. Disponível https://ojs.unica.it/index.php/anuac/article/view/1790

Castellano, Mayka. “Novo pensamento”: a gênese do culto ao sucesso na literatura de autoajuda. Animus Revista Interamericana de Comunicação Midiática, 2017. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/318290196_Novo_pensamento_a_genese_do_culto_ao_sucesso_na_literatura_de_autoajuda

Chapel, Nicholas E., The Kybalion’s New Clothes: An Early 20th Century Text’s Dubious Association with Hermeticism. Journal of the Western Mystery Tradition №24, Vol. 3. Vernall Equinox, 2013. Disponível em http://www.jwmt.org/v3n24/chapel.html . Uma ótima tradução pode ser encontrada em http://cosmoseconsciencia.blogspot.com/2016/06/a-roupa-nova-do-caibalion.html

Hermetismo Tradicional e Moderno — Parte 1

 

Frequentemente o Hermetismo é citado como uma das bases para pensamento Mágico ocidental e mesmo fora dos círculos esotéricos, a filosofia de Hermes Trismegistus é mencionada.

Entretanto, algumas informações compartilhadas sobre o Hermetismo são contraditórias. Se por um lado temos textos tradicionais, com origem no período de 1 a 3 DC, como é o caso do Corpus Hermeticum, por outro lado temos o Caibalion, que foi publicado no século 19 e também é considerado Hermético, embora sua abordagem seja diferente das obras originais.

Dessa forma, pretendo trazer alguns dados históricos e fomentar discussões sobre o Hermetismo tradicional e o Hermetismo moderno, comparando suas origens, semelhanças e diferenças.

Nesta primeira parte farei uma breve introdução ao tema.

 

O que é Hermetismo?

Hermetismo é a corrente de pensamento que tem como modelo os ensinamentos atribuídos a Hermes Trismegistus. Esses ensinamentos estão contidos em diferentes textos e obras, sendo a mais relevante delas o Corpus Hermeticum, um agrupamento de textos produzidos por volta de 100 a 300 DC.

A maioria dos textos do Corpus Hermeticum provavelmente foram produzidos na cidade de Alexandria, Egito, num período onde havia grande troca cultural com regiões vizinhas. Por isso é importante entender o contexto no qual os textos foram produzidos.

As origens e influências do Hermetismo são explicadas de diferentes maneiras. Alguns estudiosos entendem o Hermetismo como uma Teologia fortemente influenciada por Platão e filosofia grega, principalmente Platonismo Médio e Estoicismo. Outros pesquisadores buscam influências em religiões mais antigas, como o Judaísmo e o Zoroastrismo. Há inclusive quem tente enquadrar o Hermetismo junto com o Gnosticismo, embora estes últimos sejam minoria.

Apesar do conhecimento hermético ser atribuído a Hermes, os textos clássicos não são de sua autoria, se trata de uma pseudoepigrafia, ou seja, é atribuída uma falsa autoria para os textos. Isso não significa que os textos foram falsificados, mas que Hermes pode ter servido de inspiração para eles. Esse recurso linguístico é comum e foi usado por exemplo por Pseudo-Dionísio ou mesmo por Homero, quando chamava pelas Musas.

Existem ainda textos designados como herméticos que não citam diretamente e não têm nenhuma referência a Hermes Trismegistos. É o caso do livro Poimandres, no qual não há nenhuma indicação que o profeta visionário seja Hermes Trismegistus. A conexão ao hermetismo é feita a partir de uma referẽncia a outro texto, o C.H XIII.

Dessa forma o hermetismo compreende o conjunto de doutrinas que integram os documentos desse movimento, com todos os seus padrões de pensamento. A ideia principal que permeia os livros herméticos é a inter-relação entre Deus, o mundo e o ser humano.

Significado de Hermético

O termo hermético como é entendido hoje, provavelmente é uma derivação do termo latim medieval hermeticus, que significa fechar ou lacrar uma vasilha ou caixa. Nesse período os chamados alquimistas empregavam uma técnica de isolar determinados elementos químicos em recipiente ou vaso lacrado, de modo que esses não pudessem escapar de forma alguma. Um dos elementos químicos utilizados era o metal Mercúrio, o nome latino equivalente a Hermes. Os alquimistas costumavam lacrar este metal em um vaso que se chamava vaso de Hermes.

Mais tarde, um outro sentido foi utilizado para a palavra hermético, que passou a tambeḿ é a ter a conotação de obscuro, oculto, misterioso, esotérico, incompreensível e de difícil compreensão. Dessa forma a palavra passou a ser sinônimo de esoterismo, ocultismo, segredo, mistério e sigiloso.

 

Tipos de Hermetismo

Alguns pesquisadores classificam os textos Herméticos em dois grupos diferentes, de acordo com seu conteúdo:

Hermetismo Filosófico, que lida principalmente com Teologia, a relação do Homem com Deus e o mundo. Explica o modo ou a maneira de transcender todas as circunstâncias estabelecidas através da heimarmene (Fado, Destino)

Escritos Herméticos filosóficos-religiosos

Hermetismo Prático ou Técnico

Que busca obter em maior ou menor grau o poder e controle sobre o mundo telúrico, através de pŕaticas de observação, conhecimentos de simpatia, interpretação de sinais, astrologia, propriedades das substâncias vegetais e Iatromatematica (conjunto de princípios que procurava explicar os fenômenos patológicos e fisiológicos pela influência dos astros, por meio de cálculos matemáticos)

Escritos Herméticos Técnicos

É importante ressaltar que filosofia nesse contexto não deve ser considerada apenas em termos de raciocínio grego, pois os tratados gregos não são puramente filosóficos, mas sim religiosos. Apesar da aparente diferença de conteúdos, existem pontos em comum nos dois tipos de texto.

Quem foi Hermes Trismegistus?

Hermes Trismegistus e a sobreposição do deus egípcio Thot ao seu equivalente grego Hermes, de modo que a s funções principais deste último como mensageiro e intérprete dos deuses são englobados pelas funções mais amplas de Thot: deus da sabedoria, deus articulador da Palavra Divina, primeiro ministro do Deus Supremo, escriba do Deus Supremo, seu mensageiro e executor da justiça divina.

Desde o século III a.C. o nome Hermes aparece no Egito seguido do título de “grande deus, muito grande e muito grande”, proveniente das designações egípcias de Thoth. O qualificativo “Trismegistos” tornou-se canônico posteriormente, a partir do século I d. C, significando três vezes muito grande: do grego tri( três vezes) e megistos (máximo, grandíssimo ou muito grande), pois era tido como arquétipo ou modelo perfeito do maior dos reis, do maior dos sacerdotes e do maior dos sábios, e também como o possuidor do conhecimento pleno das três partes da sabedoria: dos fundamentos cosmológicos e da aplicação da alquimia; da astrologia; e da teurgia, o que lhe dava o domínio dos três mundos, físico, astral e espiritual.

Mas existiu de fato um homem chamado Hermes Trismegisto?

Essa resposta é incerta.

Dependendo da fonte utilizada, Hermes teria vivido antes do Dilúvio e depois disso teria inventado os hieróglifos, escreveu sua sabedoria em placas de pedra para preservação. Depois do Dilúvio, outro Hermes Trismegistus traduziu essa sabedoria para o Grego e transcreveu para os livros. Outro Hermes teria construído as pirâmides. Outro criou a Cidade de Adocentyn, onde imagens talismânicas eram usadas para controlar o Nilo, bem como fazer os seus habitantes mais virtuosos. Outro Hermes teria sido o neto de Adão e escrito sua sabedoria em duas colunas, uma de tijolos e outra de pedras, novamente, para preservação. Outro fez o mesmo, mas escreveu sua sabedoria em câmaras secretas, embaixo de templos egípcios. Outro teria passado sua sabedoria para Abraão (talvez por meio de Sara) e dessa forma teria sido responsável pela ascensão de Israel.

O filósofo Romano Cícero falou acerca de cinco Hermes, o último deles teria matado Argos Panoptes (Argos que a tudo vê) e então fugiu para o Egito e chegando lá, ensinou a escrita e as leis. Para Marsílio Ficino, Hermes Trismegistus foi contemporâneo de Moisés, mais antigo que o próprio Platão ou Pitágoras e para Lactâncio ele teria sido o prenúncio da encarnação de Cristo.

Para alguns ele era mais velho que Moisés e idêntico a Enoque. Para outros ele é a mesma pessoa que Idris, um dos profetas Islâmicos. Alguns ainda acreditam que ele é Cadmus, o fundador de Tebas, que trouxe o alfabeto aos Gregos. Para o Jesuita Joaquim Bouvet, correspondente de Leibniz, Hermes Trismegistus foi provavelmente o responsável pela criação do I-Ching e, finalmente, para uma pesquisadora do século 15, ele teria sido o fundador do povo Germânico.

Como podemos ver, a reputação de Hermes inclui muitas conquistas. Mas em geral, ele foi o criador da civilização, responsável pela medicina, química, escrita, leis, arte, astrologia, música, magia, retórica, filosofia, geografia, matemática e muito mais.

Hermes Trismegistus é pois, um arquétipo, um símbolo do Sábio que ensina a humanidade e faz o intermédio com Deus.

 

Referências

Ebeling, Florian. The secret history of Hermes Trimegistus: hermeticism from ancient to modern times. Cornell University Press, 2007

Lachman, Gary. The Quest For Hermes Trismegistus. Floris Books, 2011

Lira, David Pessoa de. O Batismo do coração no Vaso do Conhecimento: Uma introdução ao Hermetismo e ao Corpus Hermeticum. Recife: UFPE, 2015

Trismegisto, Hermes. Corpus Hermeticum. Tradução, edição, introdução e Notas Americo Sommerman. São Paulo: Polar, 2019

As influências do Hermetismo (Segundo a Golden Dawn)

  A Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn) deriva seu nome em parte da Tradição Hermética do Hermetismo, cujo nome por sua vez se ...