domingo, 12 de fevereiro de 2023

Hermetismo Tradicional e Moderno — Parte 3

 

 

Uma tentativa de comparação entre o Caibalion e Textos Herméticos clássicos

O principal argumento do Caibalion é que o Universo é regido por Sete Princípios Universais, a saber:

I. Princípio do Mentalismo

II. Princípio da Correspondência

III. Princípio da Vibração

IV. Princípio da Polaridade

V. Princípio do Ritmo

VI. Princípio da Causa e Efeito

VII. Princípio do Gênero

Toda a Filosofia Hermética estaria baseada nesses princípios.

Para Chapel (2013) , apenas os Princípios do Mentalismo, Correspondência, Polaridade e Gênero podem ser encontrados na filosofia Hermética Tradicional. A diferença estaria nos outros Princípios: Vibração, Ritmo e Causa e Efeito.

Entretanto, com uma pequena busca é possível identificar no CH trechos que se relacionam diretamente ou podem ter servido de inspiração para os Princípios do Caibalion, conforme segue:

 

Princípio do Mentalismo

“O Todo é Mente; o Universo é Mental.”

O Hermetismo clássico teve grandes influências do Médio Platonismo, que considerava que o mundo era uma imagem de Deus e que as Ideias são pensamentos do Deus Supremo (Nous), ou seja, estão contidas em sua mente. É Interessante perceber que o termo grego Nous, que às vezes é traduzido como “mente”, “espírito” ou “inteligência”, refere-se a uma razão intuitiva, que difere da Dianoia, ao qual se aproxima do que entendemos como intelecto, a razão discursiva, que procede por meio de definições e demonstrações.

O Caibalion está, portanto, de acordo com o Hermetismo e, de fato, com a totalidade do meio platônico, quando afirma que o “Todo é Mente”:

“Este Princípio contém a verdade de que Tudo é Mente. Explica que O TODO (que é a Realidade Substancial que subjaz a todas as manifestações e aparências que conhecemos pelo nome de “Universo Material”; “Fenômenos da Vida”; “Matéria”; “Energia” e, em suma, tudo o que é evidente a nossos sentidos materiais) é ESPÍRITO ,que em si mesmo é INCOGNOSCÍVEL e INDEFINÍVEL , mas pode ser considerado como uma MENTE UNIVERSAL , INFINITA e VIVENTE . Também explica que o mundo ou universo fenomenal não passa de uma Criação Mental do TODO , sujeita às Leis das Coisas Criadas, e que o universo, como um todo, em suas partes ou unidades, tem sua existência na mente do TODO , em cuja Mente “vivemos, nos movemos e temos nossa existência — Caibalion edição definitiva

No Corpus Hermeticum:

Logo no início do CH, Poimandres explica o mito de criação de acordo com o Nous. Explica também que ele mesmo é a Luz que existia antes, na natureza úmida e turva:

“Essa luz sou eu! Sou a Inteligência (Nous), teu Deus, Aquele que existe antes da natureza úmida que saiu das trevas, enquanto a Palavra Luminosa (Logos) que emana da Inteligência é o Filho de Deus” — CH I, 6

Continuando, Poimandres explica que o Nous gerou outro Nous a partir do Verbo e esse gerou os elementos. O segundo Nous, o Artífice continuou criando e gerou sete governadores e esferas:

“Hermes: De Onde vieram os elementos da natureza?

Poimandres: Da vontade de Deus, que tendo tomado de em si o Verbo (Logos) e contemplado o belo Mundo Arquetípico, construiu o universo conforme esse modo, com elementos tirados dela mesmo e com germes de almas. Ora, a Inteligência-Divina (Nous), sendo masculina e feminina, existindo como Vida e Luz, engendrou, pela Palavra, outra Inteligência, Criadora (outro Nous, Demiurgo): O Deus do fogo e do fluido, que por sua vez, configurou sete regentes ou governadores (…)” — CH I, 8

“Considera, por exemplo, o seguinte argumento: tudo está em Deus, mas não como se Ele estivesse em um lugar, pois além de um lugar ser um corpo, também é um corpo imóvel, e o que está em um lugar não tem movimento. Em Deus todas as coisas estão na imaginação incorpórea (…)” — CH XI, 18

“Eleva-te para além de toda altura, desce abaixo de toda profundidade; reúne em ti todas as sensações das coisas criadas: da água, do fogo, do seco, do úmido. Imagina que estás ao mesmo tempo em toda parte, na terra, no mar, no céu, que ja- mais nasceste, que ainda és um embrião, que és jovem, velho, que estás morto, que estás além da morte. Se abarcares com tua mente todas essas coisas de uma vez, os tempos, os lugares, as coisas, as qualidades, as quantidades, então poderás compreender a Deus” — CH XI, 20

Princípio da Correspondência

“Assim em cima como embaixo; assim embaixo como em cima.” — Caibalion

A frase do Caibalion, uma citação direta da Tábua de Esmeralda, afirma que existe uma correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo, e certa harmonia entre os seres dos diversos planos.

Novamente, Platão parece ser a ligação escondida entre ambos os livros. A doutrina de que o mundo físico é um reflexo das formas eternas é comum ao Platonismo em geral e portanto ao Hermetismo. Platão explica o mundo sensível da seguinte maneira: Há um modelo (o mundo ideal), existe uma cópia (o mundo sensível) e existe um Artífice, que produziu uma cópia servindo-se de modelo. O mundo inteligível (o modelo) é eterno, como é eterno tambeḿ o Artificie (a inteligência) (Reale, 2007)

No Corpus Hermeticum:

“Todas as coisas dependem do Alto, mas são divididas em Formas; e eu explicarei como isso ocorre. As espécies de cada gênero seguem a Forma de seu gênero, de tal maneira que o gênero é um todo e a espécie é uma parte do gênero. Assim, os deuses formam um gênero, os daimons também. Do mesmo modo, os seres humanos, os pássaros e todos os entes que o Mundo contém constituem gêneros que produzem espécies semelhantes a eles. (…) Advém daí que embora todos os gêneros sejam imortais, nem todas as espécies são imortais. E, no caso da divindade, o gênero e todas as espécies são imortais; mas nos outros entes, a eternidade pertence somente ao gênero: ele morre em suas espécies e se conserva pela fecundidade reprodutora. Portanto, há espécies mortais. Por exemplo: o ser humano é mortal, mas a humanidade é imortal.” — Asclepius, 4

“Portanto, primeiro há os deuses chefes de todas as espécies. Depois deles,vêm os deuses cuja essência tem um chefe. Estes últimos são deuses sensoriais e feitos à semelhança de sua origem dupla: são eles que produzem todas as coisas por meio da sua natureza sensorial e cada um deles ilumina suas obras um por meio dos outros (…)” Asclépius, 19

“Todavia, o Ser Humano, quando percebeu a criação que o Criador (Demiurgo) tinha produzido no fogo, também quis criar uma obra — e teve permissão do Pai para fazer isso. Tendo entrado na esfera da criação, percebeu as criações de seus irmãos, os Governadores, e obteve o poder de cada um deles, pois se enamoraram dele; e cada um lhe deu parte de sua governança. Então, tendo aprendido a conhecer a essência deles e tendo passado a participar da natureza deles, ele quis ultrapassar o limite da periferia dos círculos e conhecer a potência daquele que reina sobre o fogo.” — CH I, 13

“A eternidade é a imagem de Deus, o Mundo é imagem da Eternidade, o Sol é imagem do Mundo, o ser humano é uma imagem do Sol. As pessoas chamam a transformação de morte, porque o corpo se decompõe e a vida cessa de ser visível. No entanto, devo te dizer, meu querido Hermes, que todas essas coisas que foram dissolvidas, e o próprio Mundo, se transformam continuamente. A cada dia alguma parte do Mundo se oculta no não-manifestado, mas ele nunca se dissolve. Essas revoluções e esses mistérios são as fases do Mundo. A rotação é um retorno, o desaparecimento é uma renovação” — CH XI, 15

“Portanto, se queres ver Deus, pensa no Sol, pensa no curso da Lua, pensa na ordem dos astros. Quem mantém essa ordem? Afinal, toda ordem é determinada por seu número e o seu lugar. O Sol é o maior dos deuses do céu; todos os deuses celestes o reconhecem como seu rei e seu chefe; e esse astro, maior do que a terra e o mar, permite que astros bem menores que ele circulem acima dele. A quem ele reverência, a quem ele teme, meu filho? Os cursos de cada um desses astros no céu são diferentes e desiguais; quem fixou para cada um deles a direção e o tamanho do seu curso? — CH V, 3

“Os entes superiores cuidam dos inferiores; os deuses cuidam dos seres humanos; os seres humanos cuidam dos animais sem razão; e Deus cuida de todos, pois Ele é superior a todos e vela por todos. As potências de Deus são como raios; as potências da Natureza são como raios do Mundo; e as artes e ciências são como raios dos seres humanos. As potências ou energias agem através do Mundo e agem no ser humano por meio das potências físicas do Mundo; as potências da Natureza agem por meio dos elementos; os seres humanos, por meio das artes e das ciências.” — CH X, 22

Princípio da Polaridade

“Tudo é Duplo; tudo tem pólos; tudo tem seu par de opostos; semelhante e dessemelhante são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se encaixam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados. — Caibalion

Este é um conceito chave na cosmogonia Cabalística e também no mito egípcio de Hermópolis (Cidade de Hermes) que está na origem de todos os outros mitos egípcios (de Heliópolis, Mênfis e Tebas), no qual Thot é aquele que nasce dos Oito Deuses Primordiais, chamados de Ogdóada Primordial. Nesse mito, quatro “casais de deuses” dão origem a Deus enquanto Ser(Amon). E eles são 1) Nun e Nunete, o Oceano da Energia Primordial e a Oceano da Energia primordial; 2) Heh e Hehete — o Infinito e a Infinito; 3) Kek e Kekete — o Treva Primordial e a Treva Primordial; e 4) Tenemu e Tenemumete — o Errático ou instável Primordial e a Errática ou instável Primordial;

John Michael Greer articula este princípio que se aplica à filosofia Hermética, quando afirma, “a ideia essencial subjacente ao princípio da polaridade é que qualquer coisa no universo pode ser entendida, em termos mágicos, como uma relação energética entre duas forças opostas, resultando em uma terceira, uma força balanceada.

No Corpus Hermeticum:

“(…) E Ele quis que todos os seres humanos tivessem duas naturezas: uniu-as em uma mescla única e misturou- -as em proporção conveniente. Foi assim que Ele formou o ser humano com espírito (Pneuma) e corpo, isto é: com uma natureza eterna e uma natureza mortal, a fim de que um ente vivo assim constituído pudesse, devido à sua origem dupla, admirar e louvar o que é celeste e eterno, e cultivar e governar o que está sobre a terra. Quando falo aqui das coisas mortais, não estou falando dos dois elementos que estão submetidos ao ser humano: a terra e a água, mas das coisas que o ser humano faz com esses elementos, como: o cultivo do solo, as pastagens, a construção, os portos, a navegação, as relações sociais, as trocas mútuas — que são todas elas as ligações mais fortes entre os seres humanos e entre os seres humanos e essa parte do Mundo que é feita ações” — Asclépio 8

“Tudo está repleto de Luz, sem que haja fogo em lugar algum, pois da amizade e da combinação dos contrários e dos dessemelhantes nasceu a Luz, que resplandece pela potência de Deus, que á fonte de todo Bem, o chefe de toda a ordem e o condutor dos sete mundos”, CH XI, 7

“É que toda a ciẽncia é incorpórea e utiliza a mente por instrumento, assim como a mente utiliza o corpo. É desse modo, que, ambos, — tanto os objetos inteligíveis como os objetos materiais — vêm ao corpo, pois tudo deve resultar da oposição dos contrários e não pode ser de outro modo” — CH X,10

Princípio do Gênero

“O Gênero está em tudo; tudo tem seu Princípio Masculino e seu Princípio Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos.” — Caibalion

Esse é talvez o Princípio mais fácil de ser encontrado no Corpus Hermeticum. No próprio mito grego de Hermes existe essa referência aos dois gêneros. Em um dos mitos, Hermes (o filho de Zeus) e Afrodite (deusa da beleza e do amor sexual) têm um filho, cujo nome era Hermaphroditus. Este filho tinha uma beleza tão estonteante que despertou a paixão de uma ninfa. A Ninfa, tomada por seus sentimentos, colou-se ao corpo desse filho e ambos tornaram-se um só.

No Corpus Hermeticum:

“Ora, a Inteligência-Deus (Nous), sendo masculina e feminina, existindo como Vida e Luz, engendrou, pela Palavra, outra Inteligência, Criadora (outro Nous, Demiurgo)…” — CH I, 9

“Completado esse período, a ligadura que unia todas as coisas foi rompida pela vontade de Deus; pois todos os animais que até então eram andróginos, foram separados em dois no mesmo momento que o Ser Humano, e assim, se tornam machos e fêmeas. E então Deus disse, com uma palavra Santa: Crescei em crescimento e multiplicai em multidão…” — CH I, 18

“Asclépio: Então está dizendo, Trismegisto, que Deus participa dos dois Sexos? Hermes: Sim, Asclépio. E Não é apenas Deus, mas de todos os entes animados e inanimados. Explica-se: é impossível que qualquer coisa que existe seja infecunda” — Asclepius, 21

Princípio da Vibração

“Nada está parado; tudo se move; tudo vibra.” — Caibalion

No Corpus Hermeticum:

“Tat: Meu pai, a Terra não te parece imóvel?

Hermes: Não, meu filho. Pelo contrário: há nela vários movimentos, mesmo ela sendo estável. Não seria absurdo pensar que ela é imóvel — ela, que é nutridora de todos os entes, que faz tudo nascer e crescer? não pode haver produção sem movimento. É uma coisa ridícula perguntar se um quarto do Mundo é Inerte, pois um corpo imóvel significa apenas inércia” — CH XII, 17

“O Mundo move-se na Vida da Eternidade em si mesma. É nessa mesma Eternidade da Vida que reside seu lugar. Ele não haverá de se deter jamais, ele jamais se corromperá, uma vez que a permanência da Vida Eterna o envolve e o protege como uma muralha (…)” Asclépius, 30.

“Asclépio: O Mundo muda também de aparência, Trismegisto?

Hermes: Asclépio, parece que estavas dormindo durante esta explicação. O que é o Mundo e do que ele se comporia se não fosse de tudo o que nasce? Então tua pergunta refere-se ao céu, à terra e aos elementos! Afinal, o que mais muda tão frequentemente de aparência? O céu é chuvoso ou seco, quente ou frio, claro ou nublado — eis várias das mudanças de aspecto em um mesmo Tipo Uniforme. A terra muda continuamente de aspecto quando ela faz seus frutos nascerem, quando os alimenta, quando carrega produtos tão diversos em qualidades e quantidade: aqui repouso, acolá movimento, e toda uma diversidade de árvores, de flores, de grãos, de propriedades, de odores, de sabores, de formas. O fogo também tem suas transformações múltiplas e divinas. O Sol e a Lua tambeḿ tem todo tipo de aspectos: de certo modo parecem os nossos espelhos, que produzem formas semelhantes mediante reflexos” — Asclépio, 36

Princípio do Ritmo

“Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.”

No Corpus Hermeticum esse Princípio pode ser encontrado em partes que discutem a reencarnação e metempsicose:

“O espaço que se estende entre a Terra e o Céu foi dividido em regiões, meu filho Horus, com mesura e justa proporção. Essas regiões receberam de nossos ancestrais diferentes nomes: uns as chamam de “zonas”; outros, de “firmamentos”; outros, de “envoltórios”. É para lá que vão e de la que vêm as almas que se separam dos corpos e as que ainda não desceram aos corpos (…) 2. Assim, meu filho, as almas destinadas a reinar aqui embaixo partem das zonas mais altas, e quando elas se desprendem dos corpos é para lá que elas retornam, ou mesmo para ainda mais alto, a menos que tenham agido contrariamente à dignidade de sua natureza e às leis de Deus. Nesse caso, a providência do alto faz com que elas desçam às regiões inferiores, conforme a medida de suas faltas, do mesmo modo que conduz outras almas, menos potentes e menos dignas, das zonas inferiores a lugares mais ele” — Pupila do Mundo fragmento IV, 1- 2

“Poimandres: Primeiro, quando o corpo material morre, [o ser humano] entrega esse corpo às metamorfoses e a forma visível que ele tinha desaparece, e entrega ao dáimon o seu eu habitual, a partir de então inativo, e os sentidos retornam às suas respectivas fontes, das quais voltam a ser parte e são de novo misturados com as energias [do mundo], enquanto as paixões e os desejos voltam para a natureza irracional” — CH I, 24

“O Mundo tem um só sentimento e um só pensamento: criar todas as coisas e depois desfazê-las nele mesmo. Ele é o instrumento da vontade de Deus, e seu papel é receber as sementes divinas, conservá-las, produzir todas as coisas, dissolvê-las e renová las (…)”CH IX, 6

“Eis aí como será a velhice do Mundo: irreligião e desordem, confusão de toda regra e de todo bem. Quando todas essas coisas tiverem se realizado, Asclépio, então o Senhor e Pai, o Deus soberano que governa a unidade do Mundo, ao ver os hábitos e as ações dos seres humanos, corrigirá esses males mediante um ato de Sua Vontade e de Sua Bondade Divina. Para colocar um fim ao erro e à corrupção geral, ele mergulhará o mundo num dilúvio ou o consumirá pelo fogo ou o destruirá por guerras e epidemias; depois, dará de novo ao Mundo sua beleza primeira, a fim de que o Mundo volte a parecer digno de ser admirado e venerado pelos seres humanos, que viverão, então, com contí- nuos hinos de louvores e bênçãos. Eis o que será este renascimento do Mundo: uma renovação de todas as coisas boas, uma restauração santa e solene da própria natureza, reordenada no transcorrer do tempo pela Vontade Divina, que é e que sempre foi sem início e sem fim. Explica-se: a Vontade de Deus não tem início: ela é sempre ela mesma e, o que ela sempre foi, ela permanece sendo eternamente. É que a deliberação da Vontade de Deus nada mais é do que sua própria essência”. — Asclepius, 26

“Quanto ao movimento do Mundo, ele é o resultado de uma operação dupla: por um lado, ele é vivificado pela eternidade que o envolve; por outro lado, ele vivifica todos os entes que ele contém, diversificado todas as coisas de acordo com números e tempos fixos e determinados. Pela ação do Sol e das estrelas, tudo é classificado no tempo conforme uma lei divina. O tempo terrestre se dá a conhecer pelo estado da atmosfera, pela alternância entre estações frias e quentes, o tempo celeste se distingue pela revolução dos astros, que retornam periodicamente aos mesmos lugares. O mundo é o receptáculo do tempo, cujo curso e movimento mantém a vida. o tempo se mantém conforme uma regra fixa; e é essa organização do tempo que produz a renovação de todas as coisas no Mundo, por meio do retorno alternado das estações.” Asclépius, 30.

Princípio da Causa e efeito

“Toda Causa tem seu Efeito; todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso nada mais é que um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei. — Caibalion

No Corpus Hermeticum esse Princípio aparece de duas formas. Quando é explicado sobre a Causa Primeira de tudo, que é Deus; e também quando é abordado uma espécie de julgamento e punição das ações humanos pelos daimons:

“Todas as coisas manifestas tiveram um início, um nascimento e foram criadas, não de si mesmas, mas de outra coisa. As coisas criadas são numerosas — ou melhor, todas as coisas manifestadas que são diferentes e não semelhantes umas às outras — nascem de outra coisa. Portanto, há algo ou alguém que as fez e que tem de ser incriado e anterior a toda a criação” — CH XIV, 2

Agora, do mesmo modo que a luz do Sol é incessante, assim também sua fecundidade jamais se interrompe, nem quanto ao lugar nem quanto à produção. E o Sol tem ao redor de si muitos coros de daimons, semelhantes a batalhões de muitos exércitos, que, embora coabitando com os mortais, não se separam dos imortais. Lá do alto, eles acolheram a região dos seres humanos, e vigiam os afazeres humanos. É assim que eles realizam o que os deuses lhes ordenam para punir a impiedade, e o fazem mediante tempestades, ciclones, furacões, manifestações ígneas, tremores de terra, e também fomes e guerras. — CH XVI, 10

“Tendo dito essas coisas, meu filho Hórus, Deus lhes gratificou com todos os sopros e assim falou: “Não é por acaso que determinei as mudanças de vosso estado; mas, do mesmo modo que vós vos transformareis em algo pior se cometerdes alguma ação vil, vos transformareis em algo melhor se tomar- des resoluções dignas de vossa origem, pois serei eu, e ne- nhum outro, vosso vigia e vosso juiz. Reconhecei, então, que será por causa de vossas faltas anteriores que sereis punidas e aprisionadas nos corpos” — Pupila do mundo Fragmento I, 40

Divergências e outras críticas

Segundo Chapel, adiferença mais evidente do Caibalion para Hermetismo Tradicional é o foco dos textos. O foco no Corpus Hermeticum é a Gnose, conhecimento experimental da divindade, Deus é a causa última do Universo. O objetivo das discussões sobre cosmologia e criação é trazer admiração, adoração e união com o Deus Supremo. Por outro lado, segundo o autor, o foco do Caibalion estaria na Transmutação Mental e o conhecimento das Leis Universais seria apenas um meio de alcançar tal objetivo.

Continuando, o autor diz que a Mente no Corpus Herméticum não é a mesma mente do Caibalion. O CH distingue Mente (Nous) como o Deus Supremo, o Uno, o Bem — e o segundo Deus ou demiurgo chamado o logos. O pensamento do Caibalion é decididamente focado em logos e não no Nous. Enquanto que o CH busca a união com a Mente Divina, o Caibalion apenas comenta que o mundo existe na Mente macrocósmica, mas em seguida muda muda seu foco para a transmutação da mente microcósmica do indivíduo.

Para Lachman (2011), a Gnose também é o ponto central do Corpus Hermeticum e do Hermetismo, que ele chama de “Religião da Mente”. Essa palavra grega apesar de ser traduzida para conhecimento, é uma forma bem diferente do conhecimento comum. A Gnose seria um “conhecimento intuitivo sobre as verdades espirituais”. Seria uma cognição imediata, direta, não discursiva da realidade. O que uma pessoa descobre em gnosis não é alcançado observando de forma argumentativa, lógica ou empírica. É algo que não pode ser ensinado nas escolas, apesar dos meios para alcançá-la foram e continuam sendo ensinadas por grupos Hermetistas.

De fato, em nenhum momento o Caibalion comenta sobre Gnose. Existe um trabalho interno, uma progressão por meio de uma evolução física, mental e espiritual, onde as vibrações aumentariam de forma sucessiva, manifestando diferentes estágios mentais até a reintegração ao Todo, o Espírito Absoluto. Algumas características de Todo são citadas, como Incognoscível, Infinito, Absoluto, Eterno e Imutável. Mas daí em diante, pouca ênfase é dada ao assunto.

Lachman também é da opinião de que nem os Sete Princípios do Caibalion, nem a Lei da Atração do Segredo aparecem no Corpus Hermeticum ou textos Herméticos em geral e o tipo de riqueza e felicidade que os Três Inicidaos e Rhonda Byrnes (autora de O Segredo) têm em mente não tem nada a ver com a proposta Hermética.

Por outro lado, na introdução do Corpus Hermeticum, Sommerman comenta que a Iniciação Hermética Tradicional ou a via de Hermes descrita no CH é a “via da imortalidade” e apresenta-se em três etapas:

1 — Conhecer a si mesmo

2 — Conhecer a Deus

3 — A divinização do ser humano.

Essas etapas correspondem a três etapas da Grande Obra alquímica, descritos em textos tradicionais, e pode ter relação com a alquimia mental citada no Caibalion, sendo esse um pequeno ponto de conexão entre ambos. Por exemplo, no Caibalion também é abordada a superação de desejos básicos e impulsos individuais em busca de faculdades mais elevadas sendo isso um pré-requisito para a transmutação mental.

Conclusão

A corrente de pensamento Hermética Tradicional é vasta, composta por diversos textos e já foi bem discutida por grandes filósofos e pensadores no decorrer da história, como Clemente de Alexandria, Marcilio Ficino, Paracelso e muitos outros. É um fato que o Corpus Herméticum é mais abrangente e complexo do que o Caibalion. Sua proposta e objetivos também são bem diferentes.

Entretanto, o Caibalion pode ser usado como introdução ao tema, pois como demonstrado, todos os seus princípios aparecem de alguma forma no Corpus Hermeticum. Os Princípios podem ser úteis para identificar padrões e metáforas nos textos do Hermetismo Tradicional, visto que refletem, mesmo que em alguns momentos de forma obscura, o pensamento Hermético. Por exemplo, os Princípio do Gênero e da Polaridade, que são os mais evidentes nos textos referidos.

A falta de ênfase na Gnose no Caibalion é realmente crítica e pode levar a grandes erros de entendimento sobre o objetivo da Filosofia Hermética. O Caibalion, por ser mais pragmático, pode levar o leitor a entender a filosofia hermética apenas como algo do mundo Imanente, em vez da busca de conhecimento Transcendente. Por exemplo, o leitor pode cair no mentalismo comum, na tentativa de manipulação, alcance de objetivos materiais, o que se afasta e muito do objetivo do Hermetismo Tradicional. Como dito anteriormente, a ênfase nos processos mentais pode ter sido uma influência do Atkinson que também era adepto do mentalismo e assuntos relacionados.

A proposta de Transmutação Mental do Caibalion está alinhada com o “Caminho de Hermes”, conforme comentado. O Caibalion se torna assim uma pequena iniciação à filosofia Hermética, que não pode ser resumida em apenas alguns Princípios ou aforismos, mas quanto mais se conhece, mais profundo fica.

Outros temas que poderiam ser abordados são a diferença de cosmologia, os possíveis planos de existência e também o papel exercido por daimons e outros seres citados nas obras.

Referências Bibliográficas

Atkinson, W. Walker.. O Caibalion: Edição Definitiva e Comentada. Editora Pensamento, 2018

Chapel, Nicholas E., The Kybalion’s New Clothes: An Early 20th Century Text’s Dubious Association with Hermeticism. Journal of the Western Mystery Tradition №24, Vol. 3. Vernall Equinox, 2013. Disponível em http://www.jwmt.org/v3n24/chapel.html . Uma ótima tradução pode ser encontrada em http://cosmoseconsciencia.blogspot.com/2016/06/a-roupa-nova-do-caibalion.html

Japiassú, H. Marcondes, D.. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Lachman, Gary. The Quest for Hermes Trismegistus From Ancient Egypt to the Modern World. Floris Books, 2011

Machado, Paula Sandrine. O sexo dos anjos: um olhar sobre a anatomia e a produção do sexo (como se fosse) natural. Campinas: Cad. Pagu no.24 Jan./June 2005

Reale, Giv.; Antiseri, D. Historia Da Filosofia Vol. I. Filosofia pagã antiga. São Paulo : Paulus, 2003

Trismegisto, Hermes. Corpus Hermeticum. Tradução, edição, introdução e Notas Americo Sommerman. São Paulo: Polar, 2019

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